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Mostrando postagens de 2019

Das Vantagens de Ser Bobo (Clarice Lispector)

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  O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea o

Harmonia (Marla de Queiroz)

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São delicados e sutis os fios da harmonia. Ao contrário da alegria, do entusiasmo, ela é uma das sensações mais discretas. Sua voz é quase imperceptível, feito outra qualidade de silêncio. Ela não é uma gargalhada, é aquele sorriso por dentro, uma sensação gostosa de estar no lugar certo, na hora adequada. Feito um arco-íris depois da tempestade, sua beleza é adornada pelo equilíbrio dentro do derramamento. É um adestramento dos fantasmas internos. A possibilidade de aprimorar os pensamentos. É quase como não pensar. Simplesmente, sentimos uma ligação profunda com tudo, um denso bem-estar. Como se tivéssemos uma secreta intimidade com o mundo, certa cumplicidade com o tempo. É como se observássemos descompromissados, ela é uma descontração. Como se o coração batesse pelo corpo todo, mas sem extremada euforia. Uma tranqüilidade dilatada no peito, o olhar satisfeito, a mente entendendo que já nem precisa entender o que é prosa ou poesia. E o mundo inteiro cabendo num abraço. E uma fi

Não Há Elogio Maior Que o Desejo (Felipe Machado)

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Não há elogio maior do que desejar alguém. Há adjetivos que podem simular o desejo, há qualidades que podem ser destacadas em uma frase simpática ou sensual inserida no meio do diálogo rotineiro. Mas o desejo, mesmo, aquele que move montanhas e inspira loucuras, esse só se diz com o com os olhos. Ou com o corpo. (Não é à toa que em inglês ‘desire’ (desejo) rima com fire (fogo), assim como não é à toa que em português rima com ‘beijo’…) A Wikipedia define desejo como “uma tensão em direção a um fim considerado pela pessoa que deseja como uma fonte de satisfação”. Mas é sério que alguém acha que é possível expressar o desejo em palavras? Eu seria mais pragmático. Desejo é querer muito, muito, muito… alguém. Há muitas maneiras de encarar o desejo. Há o desejo material, aquele que busca satisfazer nossas necessidades consumistas. Há o desejo espiritual, a vontade de encontrar um equilíbrio utópico entre as forças que regem a existência. Há o desejo por justiça – ou vingança -,

Elogio ao Desejo (Emanuel Galvão)

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A ansiedade toma conta do meu corpo... Espero que teus ditos machuquem minha alma ou provoque gozo. Não entendo a demora das palavras... Mas, acredito que ao ler-me... pretensiosamente teu membro responda, e o sêmen seja a tinta das tuas letras e apresente em mim  um desejo incontrolável de comer tuas frases  e de vê-lo.                                                 (S.L.) A tua nudez me fascina,  E ao ver-te nua de forma tão traquina, Lanço fora as vestes de minha timidez, Para escrever com lábios em tua linda tez. A lascívia, assim como o desejo Não convêm aos sábios... Prova então da língua, cheia de desejo, Louca e sem palavras, nos teus grandes E pequenos lábios. Quase sinto o gosto do verbo em carne viva Pois que paixão tentadora, voraz e tão lasciva Não tem que ter senso, tampouco pejo, Entrego então meu corpo, todo ao teu desejo. Ao ver-te nua... Visão do paraíso... Não sei se faço verso, trovo, improviso Eu, no entanto, emudeço, calo Não se

Olhos (Ademir João da Silva)

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Olhos que prendem como o visgo prende o passarinho Olhos que fazem perder-se o íntimo Olhos nítidos que fisgam para o seu cristalino Neste lago há redemoinhos Que engolem o coração Tesão, tensão, paixão Olhos da medusa? Com certeza olhos da deusa Olhos vivos Olhos craúna O que há no fundo destas minas? Rubis...topázio...destinos Que destino? Náufrago é, quem mergulha neles. Copyright © 2019 by Ademir João da Silva All rights reserved.

Já Basta (Pedro "Pedrada" Caetano)

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Marielle – Mujer, de Joana Ziller "Memória de um tempo onde lutar Por seu direito é um defeito que mata"* Do preto de Nazaré até a preta da maré Vemos as marcas desta opressão O preconceito é aceito, só quem sofre vai saber Os flagelados com essa perseguição Eles podem até tentar a voz do povo calar Pela culatra o seu tiro foi em vão Como você vai dormir, com esse modo de agir Sua segurança vai vir da educação Oh, já basta! Oh, já basta! Memória de um tempo onde lutar Por seu direito é um defeito que mata Memória de um tempo onde lutar Por seu direito é um defeito que mata Dos humilhados e ofendidos, dos explorados e oprimidos Dos que lutam e querem a mudança Dos que nunca, perdem a esperança Sonho que se sonha junto muda realidade Por todos os nossos mártires da sociedade Pode parecer difícil termos capacidade De ver além do ouro e da prata Oh, já basta! Oh, já basta! Memória de um tempo onde lutar Por seu direito é um defeito que ma

Teus Olhos Negros, Tua Tez Morena (Carlos Manuel Arita)

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Fascina-me a brancura da açucena - as flores alvas são as mais bonitas - mas me atraem com forças infinitas teus olhos negros, tua tez morena. Como as flores, também, casta e serena, aos desejos de amar, por certo, incitas, porém só vejo, em ânsias vãs, aflitas, teus olhos negros, tua tez morena e se adorar-te fosse a minha pena, arrastaria tudo, humildemente (a alma, livre da angústia que a condena), para ter-te afinal sempre presente, amaria em silêncio, eternamente, teus olhos negros ... tua tez morena. (Honduras 1912 - 1989)

Acolher (Claudia Lima)

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Dê abraços acolhedores sempre. Só quem já acolheu uma criança pequena no colo E sentiu dela um relaxamento de confiança, de entrega Sabe o que é acolher. Para acolher é necessário Estar pronto a receber, E não é fácil... Porque a troca de energia É via de mão dupla: vai e volta. Quem vai em busca do acolhimento Procura: calor, segurança, aconchego, entrega Chega em busca de um abraço, um colo... Por muitos motivos: dor, perda, decepção, estresse, coração partido e muito mais... Quem acolhe tenta ser esponja grande e macia, Cheia de energia positiva Para acolher, e acolher bem.  Copyright © 2019 by Claudia Lima All rights reserved.

Proletariado (Hélder Aragão - Dj Dolores)

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*(foto) Justiça, que justiça? Se é sempre a mundiça entupindo as prisões! Justiça, que justiça? Se é sempre a mundiça entupindo as prisões! Justiça, que justiça? Se é sempre a mundiça entupindo as prisões! E quem é que apanha? Proletariado! É quem passa a fome? Proletariado! Sempre desempregado? Proletariado! A caminho do crime? Proletariado! Quem tá fora da festa, Quem bate com testa, No muro da grana, Quem mora no buraco, Quem carrega o saco, Quem é o culpado? Pra quem é a polícia? Pra quem é a polícia? Justiça, que justiça? Se é sempre a mundiça entupindo as prisões! Justiça, que justiça? Se é sempre a mundiça entupindo as prisões! Justiça, que justiça? Se é sempre a mundiça entupindo as prisões! E quem é que apanha? Proletariado! É quem passa a fome? Proletariado! Sempre desempregado? Proletariado! A caminho do crime? Proletariado! Quem tá fora da festa, Quem bate com testa No muro da grana, Quem mora no buraco, Quem carrega o saco, Quem é o culpado? Pra quem é a

A Voz Do Silêncio (Martha Medeiros)

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Paula Taitelbaum é uma poeta gaúcha que acaba de lançar seu segundo livro, Sem Vergonha, onde encontrei um poema com apenas dois versos que diz assim: "Pior do que uma voz que cala/É um silêncio que fala". Simples. Rápido. E quanta força. Imediatamente me veio a cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis, pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades. Um telefone mudo. Um e-mail que não chega. Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca. Silêncios que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas. Quantas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão. O perdão não vem, nem um beijo, nem uma gargalhada para acabar com o clima de tensão. Só ele permanece imutável, o silêncio, a ante-sala do fim. É mil vezes preferível uma voz que diga coisas que a gente não quer ouvir, pois ao menos as palavras que são ditas indicam uma tentativa de entendimento. Cordas vocais em funcionamento articulam argumentos, expõem suas queixas, jogam limpo. Já

Os Leitores (Emanuel Galvão)

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Os tidos normais Leem com os olhos A paisagem pelas palavras Criadas Os cegos Leem com dedos E com bastante tato Percorrem os corpos das páginas De letras tatuadas Os surdos Leem as libras Os livros E os lábios Os emotivos Têm seus motivos Para lerem sinestesicamente Hão de concordar aos sábios Os malucos como eu Que a vida tanto inquieta No ofício de ser poeta Despretensiosamente Lê o que outro sente E os amantes Ao contrário das cartomantes Das quiromantes Leem além das cartas e das mãos O que não está oculto ao coração Algo que do corpo se revele Leem os desejos segredados... Em cada tipo de pele. Copyright © 2015 by Emanuel Galvão  All rights reserved. Elogio ao Desejo & Outras Palavras / Emanuel Galvão, Maceió - AL. - Quadrioffice Editora, Quatro Barras, PR, 2015. Pag. 36

É a Vida - That's Life (Kelly Gordon / Dean Kay) Tradução

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É a vida (é a vida), é o que todos dizem Você está no alto em abril, derrubado em maio Mas eu sei que mudarei essa história Quando eu voltar ao topo, voltar ao topo em junho Eu disse que é a vida (é a vida), e por mais estranho que pareça Algumas pessoas se divertem pisoteando sonhos Mas eu não deixo, deixo isso me deprimir Porque esse velho e belo mundo continua a girar Eu já fui um fantoche, um indigente, um pirata, um poeta, um peão e um rei Eu já estive por cima, por baixo, por dentro e por fora, e uma coisa eu sei Toda vez que me encontro derrotado no chão Eu sacudo a poeira e volto pra corrida É a vida (é a vida), isso eu não posso negar Eu pensei em desistir, amor, mas meu coração simplesmente não aceita E se eu não pensasse que valesse só uma tentativa Eu pularia direto em um grande pássaro e então voaria Eu já fui um fantoche, um indigente, um pirata, um poeta, um peão e um rei Eu já estive por cima, por baixo, por dentro e por fora, e uma coisa eu se

23 Horas (Ademir João da Silva)

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Luzes da cidade Gritos e gaitadas ao longe O trem de carga das 23 horas Esperança Ânsia Uma e outra reclamação Mosquitos amassados Asas quebradas Pernas quebradas Muriçocas fodidas no chão Voo repentinamente abortado Plasma não sugado Noite da cidade E uma lua nebulosa se ergue Preguiçosa Por trás de um pálido e fino lençol De nuvens E a baga tá lá, fria Os arredores, desertos de ninguém Com árvores negras, degraus e bancos de pedra Igualmente negros e despreocupados. São 23 horas. Copyright © 2019 by Ademir João da Silva All rights reserved.

Poema de Amor Para Ninguém em Especial (Mark O'Brien)

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Deixe-me tocá-la com minhas palavras Pois minhas mãos inertes pendem como luvas vazias Deixe minhas palavras acariciarem seu cabelo deslizar tuas costas abaixo e brincar em teu ventre pois minhas mãos, de voo leve e livre como tijolos ignoram meus desejos e teimosamente se recusam a tornar realidade minhas intenções mais silenciosas Deixe minhas palavras entrarem em você carregando tochas aceite-as voluntariamente em seu ser para que possam te acariciar devagarinho por dentro. Mark O’Brien Biografia Mark O’Brien (1949-1999) é um Poeta e jornalista americano. O’Brien contraiu poliomielite em 1955 e passou o resto da sua vida paralisado, com o auxílio de um pulmão de ferro. Mas isso não o impediu de lutar por se exprimir. E fê-lo como escritor de artigos e de poesia. Foi também um acérrimo defensor de pessoas com algum grau de incapacidade. Foi co-fundador de uma editora – Lemonade Factory – que dedicou o seu trabalho à divulgação de poesia escr

A Reunião dos Bichos (Antônio Francisco)

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Eu vinha de Canindé  Com sono e muito cansado Quando vi, perto da estrada Um juazeiro copado. Subi, armei minha rede, Fiquei nele deitado. Como a noite estava linda Procurei ver o cruzeiro, Mas cansado como estava Peguei no sono ligeiro, Só acordei com os gritos Debaixo do juazeiro. Quando olhei para baixo Eu vi um porco falando, Um cachorro e uma cobra E um burro reclamando, Um rato e um morcego E uma vaca escutando. O porco dizia assim: -“Pelas barbas do capeta! Se nós ficarmos parados A coisa vai ficar preta... Do jeito que o homem vai Vai acabar o planeta. Já sujaram os sete mares Do Atlântico ao mar Egeu, As florestas estão capengas, Os rios da cor de breu E ainda por cima dizem Que o seboso sou eu. Os bichos bateram palmas, O porco deu com a mão, O rato se levantou E disse: – “Prestem atenção, Eu também já não suporto Ser chamado de ladrão. O homem, sim, mente e rouba, Vende a honra, compra o nome. Nós só pegamos a sobra Daquilo

Ela é Mar (Ademir João da Silva)

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Ela é mar que invadiu, inundou com corpo, alma, personalidade política, arte e eu, feito boca acanhada do Mundau ante o oceano  escancarei-me! virei ria* tresloucada e serelepe. Também ganhei mais sal mais gosto diante do mundo A minha cara? O meu cabelo?  A minha cabeça? Um delicioso cheiro de maresia lagunar  manguesina diversa da marítima -virei estuário- . É, ela é m a r que inundou afogou e eu, feito boca acanhada do Mundau ante o Atlântico alarguei-me! pra logo em seguida derrengar-me, jazer lá alagadiço meio tamponado e ofegante por alguns momentos imediatamente após a vaza da maré -menos água, menos sal agora- porém mais sabor e cor e tão úmido e tão cheiroso. Copyright © 2019 by Ademir João da Silva  All rights reserved.  * substantivo feminino Esteiro ou braço de rio, geralmente usado para navegação. ... Costa rasa do mar com recortes profundos (mais usada no plural):rias do mar. **Modelo Emanuelle Batista , fot

Mutirão de Amor ( Jesse Silva / Jorge Aragao / Montgomery Nunis)

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Cada um de nós deve saber se impor  E até lutar em prol do bem estar geral Afastar da mente todo mal pensar Saber se respeitar Se unir pra se encontrar Por isso, vim propor Um mutirão de amor Pra que as barreira se desfaçam na poeira E seja o fim, o fim do mal pela raiz Nascendo o bem que eu sempre quis É o que convém pra gente ser feliz Cantar sempre que for possível Não ligar pros malvados Perdoar os pecados Saber que nem tudo é perdido Se manter respeitado Pra poder ser amado Click no link abaixo e ouça a música

Partilhar (Rubel Brisolla)

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Se for preciso eu pego um barco, eu remo por 6 meses Como peixe, pra te ver 'Tão pra inventar um mar grande o bastante Que me assuste, que eu desista de você Se for preciso eu crio alguma máquina Mais rápida que a dúvida Mais súbita que a lágrima Viajo a toda força e n'um instante de saudade e dor Eu chego pra dizer que eu vim te ver Eu quero partilhar, eu quero partilhar A vida boa com você Que amor tão grande tem que ser vivido a todo instante A cada hora que eu tô longe é um desperdício Eu só tenho 80 anos pela frente Por favor, me dá uma chance de viver Eu quero partilhar, eu quero partilhar A vida boa com você Se for preciso eu pego um barco, eu remo por 6 meses Como peixe, pra te ver 'Tão pra inventar um mar grande o bastante Que me assuste, que eu desista de você Se for preciso eu crio alguma máquina Mais rápida que a dúvida Mais súbita que a lágrima Viajo a toda força e n'um instante de saudade e dor Eu chego pra dizer que eu v

CANÇÃO DAS MULHERES (Lya Luft)

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Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso. Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!'' Que quando sem querer eu

"Não Temos Muito o Que Conversar" (Majal-San)

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As esquinas não se fazem sós, A Lua não brilha por si. A brisa não refresca por nós, A nota que desafina em Mi. As curvas não se entortam alheias, A ventania atordoa o pó. Teus olhos não se retraem – anseias A nota que desafina em Dó. As vozes não se calam à toa, A Poesia permanece de pé. Teu sussurro deveras entoa Uma nota que desafina em Ré. *Veja mais do autor  aqui

Romance em Construção (Emanuel Galvão)

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Olhou aquela mulher como se fosse a única. Deixou de lado o medo e seu jeito tímido.  Parou defronte aquele ser belíssimo.  Tocou seus lindos lábios num beijo úmido. Ela surpreendeu-se com a atitude súbita.  Ficou, atordoada, eu diria que atônita.  Levou as mãos à face e ficou estática.  Seu rosto iluminou-se de um brilho pálido. Beijou-a novamente, firme, forte e rápido.  Antes que parecesse um ato patético.  O que de fato era um ato homérico. E quem observou achou até poético. Seus pés cambalearam e ficaram flácidos.  Mas o seu coração batia tão frenético.  Nunca imaginou ser beijada em público.  Queria parar, mas era hipnótico. Ele estava ali se sentido o máximo.  O que o assustava era um motivo estético.  E desistir então lhe parecia módico.  Os sentimentos puros que trazia tácito.  Então, declarou seu amor, fiel e impávido.  E a partir daí, deixou de ser, teórico. Copyright © 2015 by Emanuel Galvão All rights reserved. Elogio ao Desej

A Palavra (Pedro Costa Pereira - Pedro poeta)

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A palavra Alavanca e derruba Anula e constrói Pole e corrói Veste e desnuda Afaga e maltrata Alegra e aborrece Apaga e resplandece Adianta e retarda A palavra É o estouro da bomba É o perfume da flor A palavra é quem comanda Se declaras guerra Ou proferes o amor Copyright © 2019 by Pedro Costa Pereira All rights reserved.

A mulher da luz (Mírian Monte)

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Para você eu corro, Quando necessito de socorro, Quando o mundo cai sobre meus ombros E quando fico sob os escombros Da tristeza e da desilusão. São os seus olhos por que procuro, Quando me perco no escuro, Quando entro em apuro, E quando busco o perdão. É seu abraço que me acolhe Se o que se planta não se colhe Se a sorte se encolhe E se o sonho sonhado só, Simplesmente vira pó. São suas mãos que me ajudam A levantar na segunda-feira, A juntar essa poeira Decidindo recomeçar E a fazer, do pó, sementes Com urgência de estrela cadente, Para outras quimeras semear.  É sua alma, cheirando a alfazema, Que me inspira esse poema E que me faz querer dizer: Mãe, meu amor primeiro, Gratidão por todo o zelo E por me compreender. Minha fada, Minha musa, Minha rainha É você, mãezinha, A mulher da luz E de cada amanhecer. De todos os medos que carrego O maior de todos, eu não nego, É o de ver, minha mãe, O seu sorriso fenecer. Copyright © 2019 by Mírian Mon

Felicidade (Vicente de Carvalho)

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Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada: Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada, Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa felicidade que supomos, Árvore milagrosa, que sonhamos Toda arreada de dourados pomos, Existe, sim : mas nós não a alcançamos Porque está sempre apenas onde a pomos E nunca a pomos onde nós estamos.

Filosofia Nordestina (Mírian Monte)

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Perdoem-me a intromissão, Mas tem razão o Ministério da Educação. Se o nordestino continuar filosofando, Será um disparate, será desumano! Imagine se surgisse outro Graciliano, Uma nova Raquel de Queiroz... O que seria de nós?! O Brasil perderia as estribeiras! Já pensou se resgatarem a Nise da Silveira? Ah, meu pai amado, meu Jorge Amado! Nem cravo e canela resolvem a querela! "Parem o mundo que quero descer", Quero consignar essa queixa, Parafraseando Raul Seixas. E se os estudantes falarem versos Contarem prosas, Ou citarem Rui Barbosa? Ariano Suassuna que assuma essa ciranda, Porque nem Pontes de Miranda Conseguiria solucionar! E nem se fale em José de Alencar: Imagine se "O Guarani" fosse uma trilogia! Teríamos versos em tupi, na poesia! Vou encerrar com Tobias Barreto, Eu prometo! Ou melhor seria com Castro Alves? Que os anjos nos salvem! Esse povo do Nordeste É povo de muita sabedoria... Imagine se nas escolas Ensinarem filo

Vazantes (Nadja Rocha)

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Represar exige mais força e energia que  deixar fluir... E fluir é  ser e deixa ser. Que os encontros sejam vazantes... E quando assim não for, ainda  terá sido tudo sobre um mergulho... em você! Copyright © 2019 by Nadja Rocha All rights reserved.

Seol (Jorge Felix de Carvalho/Jürgen Von Felix)

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Elih se encontrava cansado, triste. Solitário. Diante das dificuldades que enfrentava, não conseguia ver solução. Atolado de processos, relatórios, pareceres e prazos, decidiu que não dava mais! Tentou pensar na música, nas artes, nos sonhos. Lembrou com pesar dos seus antepassados. Tentou esperança na lembrança dos descendentes. Dai, inevitavelmente tornaram-se mórbidos os seus pensamentos, dando uma força descomunal à imaginação nefasta. Elih se encontrava mesmo muito sombrio, desolado! Então, saiu do escritório, mas antes deixou todos os papéis em ordem. Organizou tudo, cada coisa no seu devido lugar. Era como se estivesse despedindo-se para sempre daquela cena. Pegou sua pasta, vestiu seu paletó, e se foi fechando a porta e em seguida jogando a chave no fundo da pasta, como se não mais fosse precisar dela. Andou a esmo em meio a multidão barulhenta, mas só conseguia ouvir uma única voz em sua mente. Olhou para a varanda de um prédio de esquina. E num hipnotizante caminhar su

Um Beijo a Distância (Emanuel Galvão)

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O que dizer de alguém inefável? Principalmente sendo esse ser, feminino. Que de modo intenso e amável Fez-me sentir: ora homem, ora menino. Seu gestual trazia tal sutileza Que meus olhos se iluminaram A visão de tanta beleza. Materializava-se como enlevo na natureza, Seu corpo nu, refletido no espelho. - o homem meu caro, é a circunstância! - Sua boca, vestida de vermelho, Mais parecia um beijo a distância. Eu que sou tão tímido E me escondo nos versos, na poesia Vi-me  tomado de uma libido De um frenesi, uma fantasia. Ela era uma mulher. A mulher: Que se deseja, que se sonha, que se quer. Há de se convir Que estar nu, vai mais além Que se despir! Já que vos pus cientes das particularidades Dar-vos-eis conhecer das intimidades. - Um pouco apenas, compreendam! - Era uma mulher para ser amada com ousadia Em seu ouvido eu sussurraria Palavras cuja paixão inflama Por onde, não se surpreendam, Eu começaria A beijar pelo pé da cama. Copyright © 2015 b

Muitas Fugiam ao Me Ver… (Carolina Maria de Jesus)

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Muitas fugiam ao me ver Pensando que eu não percebia Outras pediam pra ler Os versos que eu escrevia Era papel que eu catava Para custear o meu viver E no lixo eu encontrava livros para ler Quantas coisas eu quiz fazer Fui tolhida pelo preconceito Se eu extinguir quero renascer Num país que predomina o preto Adeus! Adeus, eu vou morrer! E deixo esses versos ao meu país Se é que temos o direito de renascer Quero um lugar, onde o preto é feliz. – Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”.  (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy).  Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996. “A vida é igual um livro.  Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.  E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos  como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta.  Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.” – Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”.  São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160. Carolina Maria de Jesus era uma anônima até o

História pra Ninar Gente Grande (Manu da Cuíca/ Luiz Carlos Máximo/ Vitor Arantes Nunes/ Sílvio Moreira Filho e Ronie Oliveira)

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Mangueira, tira a poeira dos porões Ô, abre alas pros teus heróis de barracões Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões São verde e rosa, as multidões Mangueira, tira a poeira dos porões Ô, abre alas pros teus heróis de barracões Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões São verde e rosa, as multidões Brasil, meu nego Deixa eu te contar A história que a história não conta O avesso do mesmo lugar Na luta é que a gente se encontra Brasil, meu dengo A Mangueira chegou Com versos que o livro apagou Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento Tem sangue retinto pisado Atrás do herói emoldurado Mulheres, tamoios, mulatos Eu quero um país que não está no retrato Brasil, o teu nome é Dandara E a tua cara é de cariri Não veio do céu Nem das mãos de Isabel A liberdade é um dragão no mar de Aracati Salve os caboclos de julho Quem foi de aço nos anos de chumbo Brasil, chegou a vez De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês *Mangueira -

"Ele tocou..." (Rupi Kaur)

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ele tocou meu pensamento antes de chegar à minha cintura meu quadril ou minha boca ele não disse que eu era bonita de primeira ele disse que eu era extraordinária - como ele me toca *do livro outros jeitos de usar a boca.

Samba da Utopia (Jonathan Silva)

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Se o mundo ficar pesado Eu vou pedir emprestado A palavra poesia Se o mundo emburrecer Eu vou rezar pra chover Palavra sabedoria Se o mundo andar pra trás Vou escrever num cartaz A palavra rebeldia Se a gente desanimar Eu vou colher no pomar A palavra teimosia Se acontecer afinal De entrar em nosso quintal A palavra tirania Pegue o tambor e o ganzá Vamos pra rua gritar A palavra utopia *Foto by (Cristiano Mariz/VEJA) 04 de Janeiro 2018 Ouça a música

Nenhuma Qualquer (Paulo Miranda Barreto)

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Meu bem. . . mulher nenhuma é ‘qualquer uma’ nem tem que bem- querer quem mal lhe quer . . . meu bem toda mulher é supra e suma orquídea que perfuma se quiser . . . qualquer mulher é todas. . . doce Luma porém, mulher alguma é ‘uma qualquer’. . . PAULO MIRANDA BARRETO Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

"Brasil" (Sergio Vaz)

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A mulher repleta de lama, chora. O homem feito de barro desaba em lágrimas. De aço mesmo, só a vida -essa lâmina cega que corta sempre do mesmo lado. Foto @diniloris 2015

"Quando For Fazer amor" (Zack Magiezi)

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Quando for fazer amor. Faça nu. Tire os diplomas. O Status. Sucesso profissional. Suas etiquetas de grife. Tire a chaves do carro. Os cartões de crédito. Tire tudo. Até só sobrar a deliciosa. Apimentada humanidade. Siga o autor no Instagran.