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Mostrando postagens com o rótulo Fernando Tenório

14 de Maio (Lazzo Matumbi)

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No dia 14 de maio, eu saí por aí Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir Levando a senzala na alma, eu subi a favela Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia Um dia com fome, no outro sem o que comer Sem nome, sem identidade, sem fotografia O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver No dia 14 de maio, ninguém me deu bola Eu tive que ser bom de bola pra sobreviver Nenhuma lição, não havia lugar na escola Pensaram que poderiam me fazer perder Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu Será que deu pra entender a mensagem? Se ligue no Ilê Aiyê Se ligue no Ilê Aiyê Agora que você me vê Repare como é belo Êh, nosso povo lindo Repare que é o maior prazer Bom pra mim, bom pra você Estou de olho aberto Olha moço, fique esperto Que eu não sou menino Lazzo Matumbi 14 de Maio Congresso

Problema de Casal (Fernando Tenório)

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Estava de plantão num hospital psiquiátrico. A noite navegava entre um atendimento e outro, permitindo cochilos nos intervalos entre as consultas. Três e meia da manhã, e ouvi um companheiro de trabalho avisar: - Chegaram dois pacientes. - De ambulância? - Nada. Vieram juntos. A cena era inusitada. O homem com uma gravata, camisa mal passada, calça de linho. A mulher com um vestido de festa cheio de brilho e sandália alta. Ambos claramente alcoolizados. Chamei o camarada, mas a moça logo pediu uma "consulta conjunta" e também entrou na sala. Perguntei-lhes: - O que trouxe vocês aqui? Eles se entreolharam, e a mulher resolveu tomar partido: - Resolvemos vir aqui saber quem é o mais doido da relação. - Isso! Estávamos voltando de um baile de formatura e ela teimou que sou estranho, mas na verdade a maluca é ela. Então, resolvemos passar aqui para ouvir a opinião de quem entende - disse o marido. Eu já estava acordado, mas nem tanto. Ainda assim, deixei a curiosidade conduzir

A Verdadeira Cura (Fernando Tenório)

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Sábado de plantão. Depois de alguns atendimentos domiciliares, a ambulância ruma pela cidade. Os contrastes do Rio de Janeiro sendo vistos pela janela. Tentava absorver a cidade com os olhos, vendo meninos jogando futebol, mulheres conversando fortuitamente nas cadeiras da calçada e pude ver no Irajá uma pichação da cigana Oleska: “Trago o amor em 7 dias. Se não trouxer não era amor”. De alguma maneira, aquele recado escrito no muro enegrecido mexeu com todos ali. Luiz, o motorista, sorriu. André, o enfermeiro, cuidou em tirar foto para mandar à namorada. Eu fiquei pensando na verdade da sentença. Chegamos a Madureira, destino do atendimento domiciliar. Terra do samba, das mulatas que requebram até de manhã, da Portela e Império Serrano. Isso pouco importava. O rádio já havia confirmado que um senhor 88 anos estava em franca dispneia. Entramos numa vila de casas pequeninas e na residência de cor amarela avançamos. O sofá era o abrigo para o senhor. Ele estava sentado, com a

As Melhores Pessoas (Fernando Tenório)

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Duas mulheres entram numa das maiores confeitarias de Maceió. A beleza da loira era estonteante. O pedaço de bolo logo foi esquecido e os olhos ficaram devotados somente para ela. A outra mulher, de cabelos brancos e colar dourado, perguntou: - E namorado, minha filha? Você está quase há um ano solteira. Mulher bonita troca de namorado, mas não fica solteira. - Vovó, a fase não está boa mesmo. Estou andando nas melhores festas, naquelas das melhores pessoas. Festa só vale a pena se o ingresso custar acima de duzentos reais. O encanto foi sepultado com apenas poucas palavras. Terminei meu bolo rapidamente e voltei para casa pensando nas “melhores pessoas” e o que elas fazem. As melhores pessoas ajeitam seus ventiladores na calçada, andam com pouca roupa pela rua e cuidam das plantas ao final do dia. Quando andam na praia, elas não olham com inveja para os prédios luxuosos e palacetes alheios, preferindo agradecer pela leve brisa que acalenta. As melhores pe

O Que é Morrer de Sede em Frente ao Mar? (Fernando Tenório)

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Carlos saiu para passear. Embora avesso às saídas no fim de tarde de sábado resolveu, por obra do destino ou acaso, ver o mar. Experimentou a brisa no rosto como há muito não fazia. Olhou para o azul do céu e lembrou-se dos olhos de um passado que ainda mexe. Mexe mais que ressaca de mar revolto, tem poder maior que o da água na arrebentação, a qual pode,apesar da sua fluidez, levar tudo consigo.

Onde anda seu primeiro amor? (Fernando Tenório)

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Todos nós já tivemos um primeiro amor. Pode não ter sido o melhor beijo, o melhor na cama e o amor mais intenso. No entanto, guardamos no bolso que carregamos o passado um quê de nostalgia e uma curiosidade sobre a vida do amor mais pueril. Certo dia lembrei do meu primeiro amor. A moça era de Maribondo-Alagoas, assim como eu. Por ela fui capaz de ir contra minha natureza. Frequentei as discotecas das cidades vizinhas. Thundercats em Capela, Zueira em Anadia e Miau em Tanque D´arca. Frequentei muito show de forró para ter chance de chamá-la à uma única dança. Por ser um péssimo dançarino, concentrava-me em não pisar em seu pé e não proferia uma só palavra. Mesmo assim, ganhava a noite por minha coragem e quase conquista.