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Mostrando postagens de agosto, 2018

Das Vantagens de Ser Bobo (Clarice Lispector)

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  O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea o

Caixa de Pandora (Emanuel Galvão)

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"...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza,  do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos  diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma.  Pois o aroma é um irmão da respiração  - ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma,  diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer,  amor e ódio.  Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas." Trecho de O Perfume - Patrick Suskind Eu sei ler teu corpo Não pense mal de mim Sou feiticeira sim Mas da porção do bem Me quer? De Zeus  Com todo dote Sou mulher semelhante as deusas imortais Mulher com algo mais Assim me fez Hefesto Não digas que não presto Sou da porção do bem Me quer? Se me quer, acredite O desejo indomável quem me deu foi Afrodite Prendada, feita para amar Ensinou-me em arte Atená

Delícia (Patricia Vieira)

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Sua alegria É igual a melancia, Quanto mais a  gente come Mais se delicia! Copyright © 2018 by Patrícia Vieira All rights reserved.

Brincadeira (Mírian Monte)

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Foi brincar de lua, Percebeu-se nua, Em meio às estrelas E conchas do mar Umas maldiziam, Em tom de cochicho, O puro capricho De se revelar Dela se queixavam, Outras, amiúde, Por sua atitude De se desnudar E argumentavam Que não poderia Inspirar solfejos À brisa do mar Mas a lua cheia Tão resplandecente Estava indiferente E decidiu brilhar No fundo, sabia Que sua ousadia Só despertaria Sonhos de mudar Que agradeceriam Em fase derradeira Pela brincadeira De iluminar.

Senhora dos Prazeres (Ronaldo de Andrade / Mácleim)

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                                                                        Rainha de terra e mar Senhora do azul do céu Iara da Mundaú Sereia das enseadas Mãe d’água de Maceió Sua graça é dos prazeres Ó senhora das auroras Estrela da madrugada Que ilumina a cidade Para dançar e tocarem Bois e tambores nas ruas De lá da Ponta da Terra Te rendemos homenagens Ó Iá da prosperidade Mãe dos homens de fé Jangadeiros, Trapicheiros És também a flor do amor Que adorna os terreiros Encarnados da paixão No Poço e no Jaraguá Minha Mestra e Contra Mestra Pastorinha do presépio Diana do pastoril Com manto faixa e coroa E sete rosas na mão Tanta graça, tanto mimo Tá no badalar dos sinos Nas torres perto de Deus Da catedral onde moras Ao brilho de sol e lua Nos temporais e no estio Encantai nossos cantores Ó Senhora dos Prazeres.

MEU CHÃO: NORDESTE (Emanuel Galvão)

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Tanto mais me aproximo do meu chão Mais escuto no ar uma canção Como hino trazido pelo vento Que me faz lembrar todo momento O torrão ardente que me deste A brisa que sopra em meu nordeste. Tanto mais me aproximo do meu chão Mais me pego a fazer uma oração Pra que nunca me esqueça dessa raiz Que apesar de desprezado no país Tem cultura bela e inconteste Essa gente que habita o meu nordeste. Tanto mais me aproximo do meu chão Mais me arde no peito uma paixão Um amor tão quente quanto o sol Colorindo o céu num arrebol Descansando seu brilho no oeste Vai se pondo o sol do meu nordeste. Tanto mais me aproximo do meu chão Mais me dói essa perversa agressão De que somos um povo ignorante Que balança a cabeça a todo instante Se não nos conhece, não se preste A escarnecer assim do meu nordeste. Tanto mais me aproximo do meu chão Gonzaga, Padre Cicero, Lampião Patativa do Assaré, “o inteligente” Representam bem mais a minha gente Não carece de aprovação lá

Estrangeirismo ( Carlos Silva / Sandra Regina)

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Outro dia, me convidaram para irmos ao MC DONALD’S, comermos CHEESE BURGER!... O salão estava lotado e fizemos os pedidos através de um tal de... DRIVE THRU. Os colegas, percebendo a minha irritação, disseram: -- Se tu tiver com pressa, eles têm um sistema de DELIVERY, maravilhoso!!! Desacostumado com este linguajar, chamei os cabras: - Vâmo s’imbóra! Seguimos pela avenida HENRIQUE SCHAUMANN, onde pude observar um OUTDOOR. Estava escrito: CHINA IN BOX, e uma seta indicativa: PARKING. Nós não paramos por lá não. Seguimos mais adiante, avistamos um restaurante bonito e luxuoso, e na porta de entrada, uma luz NEONpiscando escrita: OPEN. Quando olhei pro chão, pude ver, estampado, um capacho com a bandeira americana, me convidando:WELLCOME. Ao adentrarmos naquele recinto, eu pude observar, na sua decoração e nas paredes, que estava escrito assim:ICE CAKE, CHEESE EGG, CHEESE BURGER e FAST FOOD. Eu pensei comigo: “FOOD" na Bahia a gente USA numa outra situação… Do meu lado esquerdo, u

Elogio da Dialética (Bertolt Brecht)

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A injustiça avança hoje a passo firme; Os tiranos fazem planos para dez mil anos. O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são Nenhuma voz além da dos que mandam E em todos os mercados proclama a exploração; isto é apenas o meu começo. Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. Quem ainda está vivo não diga: nunca O que é seguro não é seguro As coisas não continuarão a ser como são Depois de falarem os dominantes Falarão os dominados Quem pois ousa dizer: nunca De quem depende que a opressão prossiga? De nós De quem depende que ela acabe? Também de nós O que é esmagado que se levante! O que está perdido, lute! O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha E nunca será: ainda hoje Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã. *Foto Sebastião Salgado 

Hino à Negritude - Cântico à Africanidade Brasileira (Eduardo de Oliveira)

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I Sob o céu cor de anil das Américas Hoje se ergue um soberbo perfil É uma imagem de luz Que em verdade traduz A história do negro no Brasil Este povo em passadas intrépidas Entre os povos valentes se impôs Com a fúria dos leões Rebentando grilhões Aos tiranos se contrapôs Ergue a tocha no alto da glória Quem, herói, nos combates, se fez Pois que as páginas da História São galardões aos negros de altivez II Levantado no topo dos séculos Mil batalhas viris sustentou Este povo imortal Que não encontra rival Na trilha que o amor lhe destinou Belo e forte na tez cor de ébano Só lutando se sente feliz Brasileiro de escol Luta de sol a sol Para o bem de nosso país Ergue a tocha no alto da glória Quem, herói, nos combates, se fez Pois que as páginas da História São galardões aos negros de altivez III Dos Palmares os feitos históricos São exemplos da eterna lição Que no solo Tupi Nos legara Zumbi Sonhando com a libertação Sendo filho também da Mãe-Áfric

Teste de Rorschach (Jürgen Von Felix)

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Eu, quem Sou? Qual a minha Cor? Se tenho Cabelo que parece novelo, De lã, buchado, que do pente a Amizade não tem. Se insisto em pentear Sou um sem Caráter, dominado. Se ouso afros penteados, Sou Negrinho metido, mal criado! Aqui no Brasil, tenho ascendência mil. Vermelho, Branco e Negro Sudão. Mas sou visto como menos escuro Como menos claro... Não! Se dou certo e consigo Diploma Dizem que é minha obrigação, Pois "Negro tem que mostrar o seu valor". Quando não logro êxito e O Sistema vence, Sou execrado, Açoitado, retorno ao terror! E se em Batalhas o Brasil se envolver, Adivinha quem nela primeiro vai morrer: Pretinho; Moreno; Mulato; Negão... Estou no limbo das cores no Arco-iris da exclusão. Copyright © 2018 by Jorge Felix All rights reserved.

Deu Branco - O Patético Dia Que a Coisa Ficou Preta - (Emanuel Galvão)

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A coisa ficou preta Pintou preconceito Isso eu não aceito Dentro da minha letra Que não tem cor Mas imprime o preto da tinta Tem preconceito maior - Por favor, não minta! – Do que atribuir a cor preta A coisa ruim que se sinta? Talvez a borracha branca Apague a ideia nefasta Mas não afasta Mancha... O preconceito racial existe Na letra, na vida, no verso Faz parte do universo De quem ama De quem odeia O preto reclama Por que sente na pele O preconceito que o rodeia Pode parecer eufemismo Mas para mim é racismo Dizer que a coisa ta preta. Copyright © 2018 by Emanuel Galvão All rights reserved.

BEM DITO SEJA O AMOR (Marla de Queiroz)

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Bem dita seja a palavra Amor disparada pelo peito, que faz da ação o verbo pro sujeito, que estica a frase até compor a narrativa ou a canção. Bendito seja o amor que transforma o ínfimo em infinito, que traz a oração pro pensamento mais aflito, que apressa a atitude da intenção. Bem dita seja a palavra Amor que faz do nome um mantra, transforma a saudade em esperança e traz dentro da carta a letra com a força do punho e o movimento da mão. Bendito seja o amor que encurta distâncias e suprime abismos, acolhe os sentimentos imprecisos e veste pensamento e gesto enquanto despe o coração. Bendito seja o amor que só sendo fluido se solidifica, que só sendo livre se torna conquista, que só sendo ação se torna fato. Bem dita seja a palavra Amor que por ser tão viva, lúdica e lírica jamais será consumida pelo silêncio, só pelo ato. *Texto publicado originalmente na Revista Vênus Digital

Um surdo manifesto: DA ALMA ENCANTADORA DAS RUAS AOS MOLEQUES ACOSTUMADOS COM SUCRILHOS NO PRATO - ou dos textos que poucos leem e muitos fingem não entender - (Juliano Beck)

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“Qual de vós já passou a noite em claro  ouvindo o segredo de cada rua?  Qual de vós já sentiu o mistério, o sono,  o vício, as ideias de cada bairro?  A alma da rua só é inteiramente sensível  a horas tardias." (João do Rio)  Os usos que se faz da rua divergem. Ao pobre a rua é uma extensão de si. Lhe invade o peito a brisa matutina quando ao labor se encaminha de bicicleta. Lhe toma por inteiro o cheiro virulento das povoadas horas do terminal meio-dia. Lhe afaga quando o fim de tarde lhe cai sob o dorso trazendo os matizes que não se dão por vencidos frente à inevitabilidade gris que a tudo concretiza. Há nisso uma noção de pertencimento, orgulhoso pertencimento. Tudo lhe foi tirado, arrancado, mas ele dispõe da rua! Por ela anda vagarosamente sentindo as entranhas de cada esquina. É dela que tira o seu sustento. Nela também se põe a ruminar a vida. E sorve um trago nas recônditas tabernas do centro. E nela perde a noção do tempo. E se encaminha a pé para

Equalize (Pitty/Peu Souza)

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Às vezes se eu me distraio Se eu não me vigio um instante Me transporto pra perto de você Já vi que não posso ficar tão solta Me vem logo aquele cheiro Que passa de você pra mim Num fluxo perfeito Enquanto você conversa e me beija Ao mesmo tempo eu vejo As suas cores no seu olho Tão de perto Me balanço devagar Como quando você me embala O ritmo rola fácil Parece que foi ensaiado E eu acho que eu gosto mesmo de você Bem do jeito que você é Eu vou equalizar você Numa frequência que só a gente sabe Eu te transformei nessa canção Pra poder te gravar em mim Adoro essa sua cara de sono E o timbre da sua voz Que fica me dizendo coisas tão malucas E que quase me mata de rir Quando tenta me convencer Que eu só fiquei aqui Porque nós dois somos iguais Até parece que você já tinha O meu manual de instruções Porque você decifra os meus sonhos Porque você sabe o que eu gosto E porque quando você me abraça O mundo gira devagar E o tempo é só meu E ninguém registra a ce

Prece Árabe (Texto traduzido do árabe por Seme Draibe)

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Deus, não consintas que eu seja o carrasco que sangra as ovelhas, nem uma ovelha nas mãos dos algozes. Ajuda-me a dizer sempre a verdade na presença dos fortes, e jamais dizer mentiras para ganhar os aplausos dos fracos. Meu Deus! Se me deres a fortuna, não me tires a felicidade; se me deres a força, não me tires a sensatez; se me for dado prosperar, não permita que eu perca a modéstia, conservando apenas o orgulho da dignidade. Ajuda-me a apreciar o outro lado das coisas, para não enxergar a traição dos adversários, nem acusá-los com maior severidade do que a mim mesmo. Não me deixes ser atingido pela ilusão da glória, quando bem sucedido e nem desesperado quando sentir insucesso. Lembra-me que a experiência de um fracasso poderá proporcionar um progresso maior. Ó Deus! Faze-me sentir que o perdão é maior índice da força, e que a vingança é prova de fraqueza. Se me tirares a fortuna, deixe-me a esperança. Se me faltar a beleza da saúde, conforta-