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Filosofia Nordestina (Mírian Monte)

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Perdoem-me a intromissão,
Mas tem razão o Ministério da Educação.
Se o nordestino continuar filosofando,
Será um disparate, será desumano!
Imagine se surgisse outro Graciliano,
Uma nova Raquel de Queiroz...
O que seria de nós?!
O Brasil perderia as estribeiras!
Já pensou se resgatarem a Nise da Silveira?
Ah, meu pai amado, meu Jorge Amado!
Nem cravo e canela resolvem a querela!
"Parem o mundo que quero descer",
Quero consignar essa queixa,
Parafraseando Raul Seixas.
E se os estudantes falarem versos
Contarem prosas,
Ou citarem Rui Barbosa?
Ariano Suassuna que assuma essa ciranda,
Porque nem Pontes de Miranda
Conseguiria solucionar!
E nem se fale em José de Alencar:
Imagine se "O Guarani" fosse uma trilogia!
Teríamos versos em tupi, na poesia!
Vou encerrar com Tobias Barreto,
Eu prometo!
Ou melhor seria com Castro Alves?
Que os anjos nos salvem!
Esse povo do Nordeste
É povo de muita sabedoria...
Imagine se nas escolas
Ensinarem filosofia?

*Da esquer…

Vazantes (Nadja Rocha)

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Represar exige
mais força e
energia que 
deixar fluir...
E fluir é  ser e
deixa ser.
Que os encontros
sejam vazantes...
E quando assim
não for, ainda 
terá sido tudo
sobre um
mergulho... em
você!

Copyright © 2019 by Nadja Rocha
All rights reserved.

Seol (Jorge Felix de Carvalho/Jürgen Von Felix)

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Elih se encontrava cansado, triste. Solitário. Diante das dificuldades que enfrentava, não conseguia ver solução.
Atolado de processos, relatórios, pareceres e prazos, decidiu que não dava mais! Tentou pensar na música, nas artes, nos sonhos. Lembrou com pesar dos seus antepassados. Tentou esperança na lembrança dos descendentes.
Dai, inevitavelmente tornaram-se mórbidos os seus pensamentos, dando uma força descomunal à imaginação nefasta.
Elih se encontrava mesmo muito sombrio, desolado!
Então, saiu do escritório, mas antes deixou todos os papéis em ordem. Organizou tudo, cada coisa no seu devido lugar. Era como se estivesse despedindo-se para sempre daquela cena. Pegou sua pasta, vestiu seu paletó, e se foi fechando a porta e em seguida jogando a chave no fundo da pasta, como se não mais fosse precisar dela.
Andou a esmo em meio a multidão barulhenta, mas só conseguia ouvir uma única voz em sua mente. Olhou para a varanda de um prédio de esquina. E num hipnotizante caminhar subiu…

Um Beijo a Distância (Emanuel Galvão)

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O que dizer de alguém inefável?
Principalmente sendo esse ser, feminino.
Que de modo intenso e amável
Fez-me sentir: ora homem, ora menino.

Seu gestual trazia tal sutileza
Que meus olhos se iluminaram
A visão de tanta beleza.
Materializava-se como enlevo na natureza,
Seu corpo nu, refletido no espelho.
- o homem meu caro, é a circunstância! -
Sua boca, vestida de vermelho,
Mais parecia um beijo a distância.

Eu que sou tão tímido
E me escondo nos versos, na poesia
Vi-me  tomado de uma libido
De um frenesi, uma fantasia.
Ela era uma mulher. A mulher:
Que se deseja, que se sonha, que se quer.

Há de se convir
Que estar nu, vai mais além
Que se despir!
Já que vos pus cientes das particularidades
Dar-vos-eis conhecer das intimidades.
- Um pouco apenas, compreendam! -

Era uma mulher para ser amada com ousadia
Em seu ouvido eu sussurraria
Palavras cuja paixão inflama
Por onde, não se surpreendam,
Eu começaria
A beijar pelo pé da cama.



Copyright © 2015 by Emanuel Galvão
All rights reserved.


Elo…

Muitas Fugiam ao Me Ver… (Carolina Maria de Jesus)

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Muitas fugiam ao me ver
Pensando que eu não percebia
Outras pediam pra ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava livros para ler
Quantas coisas eu quiz fazer
Fui tolhida pelo preconceito
Se eu extinguir quero renascer
Num país que predomina o preto

Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.
– Carolina Maria de Jesus, em “Antologia pessoal”.  (Organização José Carlos Sebe Bom Meihy).  Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.

“A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra.  E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos  como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta.  Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”

– Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de despejo”.  São Paulo: Francisco Alves, 1960, p. 160.


Carolina Maria de Jesus era uma anônima até o  lançamento do seu primeiro livro, Quarto de…

História pra Ninar Gente Grande (Manu da Cuíca/ Luiz Carlos Máximo/ Vitor Arantes Nunes/ Sílvio Moreira Filho e Ronie Oliveira)

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Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês


*Mangueira - Samba-Enredo 2019


"Ele tocou..." (Rupi Kaur)

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ele tocou meu pensamento
antes de chegar
à minha cintura
meu quadril
ou minha boca
ele não disse que eu era
bonita de primeira
ele disse que eu era
extraordinária

- como ele me toca




*do livro outros jeitos de usar a boca.