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Ventania (Verônica Ferreira)

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Esse vento
Que entrou pelas janelas abertas
Vem de longe, muito longe,
Lá onde moram os sonhos.
Ele encheu a casa
De aromas da infância,
Cheiro de frutas
Cheiro de mar, de férias
E de algumas fragrâncias
Que não se encontra mais.
A força desse vento
Abriu algumas gavetas
Que estavam fechadas e esquecidas,
Espalhou pela casa
Fotos, papeis, recordações...
Deixando rostos queridos estampados nas paredes,
Além de aromas,
O Vento trouxe sons de antigas canções e vozes
Que se espalharam por toda parte.
Fui rodando pela casa inteira,
Movida por sua força,
Como se estivesse dançando
E atravessei paredes,
Entrei em lugares já vividos,
Encontrei-me com o ontem
Como se hoje fizesse sentido.
Parei na porta da saida
Mas, não vi a rua,
Olhei para dentro da casa
E entre fotos, papeis, recordações, brinquedos de criança,
Canções e aromas...
Lá estava "eu"
Encolhida num canto da sala,
Olhamo-nos profundamente
Como quem encontra um grande amor.



Copyright © 2018 by Verônica Ferreira
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(malukisses) Múcio Góes

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ela me beijou

feito louca

e me deixou com esse

gosto de coração

na boca

Soraia Sereia (Paulo Miranda Barreto)

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‘’a vida é tão curta quanto a tua saia’’
mas inda te enfurnas no quarto dos fundos
e segredas versos à uma samambaia
alheia a beleza de bilhões de mundos

que pairam no espaço infinito, Soraia
enquanto teu corpo perfeito definha
enquanto teu corpo moreno desmaia
de tédio na cama em que dormes sozinha. . .

à espera da morte, vives de tocaia
não sabes o nome da tua vizinha
se a lua está cheia, se o sol inda raia
ou se a humanidade rasteja ou caminha

e o que só deus sabe e ninguém adivinha
é o quanto te amo . . . te amo Soraia!
e tudo eu faria pra que fosses minha
moveria os montes de todo o Himalaia

mas, tu sequer lembras da força que tinhas
dos velhos amigos, da casa na praia
de nós vendo estrelas, catando conchinhas
sentados na areia e ouvindo Tim Maia. . .

lembro-me de tudo, de cada coisinha
das tuas blusinhas tomara que caia. . .
dos teus lindos brincos de água-marinha
de todas as flores que te dei, Soraia

mas, agora o medo dentro em ti se apinha
te rói ,te espezinha, te prende …

Folhas Mortas (Arnoldo Wiecheteck)

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Desprende-se uma folha amarelada,
Logo outra lhe sucede e outras mais,
Na calma de uma tarde acizentada,
Como suspiros, lágrimas e áis.

Folhas mortas, que tombam nas estradas,
Na balada dos ritmos estivais,
Levadas pelos ventos, em derrocada,
Rolam, bailam, voam em espirais.

Também sou como a folha desprendida,
Rolando pelo outono dessa vida,
Vagando com meu sonho já incolor.

Caí numa alameda sossegada,
Num êxtase de uma noite enluarada,
Entre um beijo e uma lágrima de amor.

Ciclo da Vida (Lys Carvalho)

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Não tenho mais memória para lembrar
palavras, músicas, datas e receitas,
mas tenho um calor na alma,
que abastece meu coração
de ternura, amizade e muito amor.

Já não tenho idade para correr,
mas firmo, bem devagar,
cada passo, no compasso da vida,
contando e relembrando
a pressa de um passado,
no qual somos como frutas
(frescas e viçosas).

Não tenho mais a firmeza das mãos
para escrever todas as lembranças
de um passado que ainda vivo,
mas, lembrar revigora a alma
e o coração, para continuar a viver.

Não tenho mais velhos e queridos amigos,
mas tenho a felicidade de conquistar novos,
reciclando meus conhecimentos e valorizações,
tornando-me mais receptiva à vida.

Não tenho mais pai, mãe, irmão, tias e tios,
mas tenho guardado seus rostos
e suas marcantes presenças,
nos lindos momentos de minha vida.

No ciclo da vida, somos como as nuvens
que vão passando...
e formando vários cenários,
até que se dissolvem no céu.

Hoje, as rugas
(que marcam minha face)
nada representam dentro do meu …

Derradeiro ‘AU REVOIR’ (Paulo Miranda Barreto)

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No dia em que os anjos caírem em si
(algum tempo antes de Jesus voltar)
já haverei de estar com Salvador Dali
a ler Baudelaire nos jardins de Alá. . .

Não há inferno aqui . . .  nem acolá!
E ‘fogo eterno’ é o meu (anote aí)!
No Além, sei muito bem que mal não há
E eu lá, só vou colher o que escolhi. . .

Do amor que dei dos versos que escrevi
da paz que semeei .  . . farei um chá
e brindarei á tudo o que vivi
junto dos meus (e Deus nos louvará)

De quem ficar não sei o que será. . .
Talvez o mundo acabe em frenesi. . .
Quem sabe continue como está. . .
Ou mude pra melhor (como eu previ)!

Só sei que nada sei . . .  mas, e daí?
Se um dia saberei . . .  quem saberá?
Quem sabe eu já sabia e me esqueci. . .
(Acho que eu sempre soube) . . . E quem dirá

se era verdade tudo o que  menti 
se era mentira o que  fingi jurar
ou se o que  não jurei e nem fingi 
alguém jurou, fingiu no meu lugar?

Os erros (que jamais admiti)
já corrigi . . . não tenho o que pagar
E os dons que nunca pude revela…

Retrato do Artista Quando Coisa (Manoel de Barros)

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A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.