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Oxigénio (Emanuel Galvão)

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Amada,
te quero muito bem...

Eu sei que sabes!

Mas, quero ser como a brisa
em dias de verão...
- um sopro que se repete como compulsão -.

Nos dias frios...
também se repetir.
Ser como as cobertas que puxas cada vez mais
para perto de ti.

E por fim...
Nos dias amemos,
destes mais ou menos,
esses que nem notas que existo...
ser oxigénio...
por saber que não vives
sem mim.



Copyright © 2018 by Emanuel Galvão
All rights reserved.



Ars Poética (Paulo Sabino)

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marcar o papel a palavra
fogo
coisa que queime,
que permita combustão

rasgar a folha a metáfora
faca
coisa que corte,
que sangre emoção

lamber a linha a imagem
língua
coisa que arrepie,
que concentre tesão

molhar o branco a figura
água
coisa que inunde,
que contemple imensidão

Fanatismo (Florbela Espanca)

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Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist'rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Reinauguração (Carlos Drummond de Andrade)

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Entre o gasto dezembro e o florido janeiro, entre a desmistificação e a expectativa, tornamos a acreditar, a ser bons meninos, e como bons meninos reclamamos a graça dos presentes coloridos. Nessa idade - velho ou moço - pouco importa. Importa é nos sentirmos vivos e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos e do profundo instinto de subsistir enquanto as coisas em redor se derretem e somem como nuvens errantes no universo estável.

Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos. Esta é a magia do tempo. Esta é a colheita particular que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante, no acreditar na vida e na doação de vivê-la em perpétua procura e perpétua criação. E já não somos apenas finitos e sós. Somos uma fraternidade, um território, um país que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

Feliz Ano Todo! (Emanuel Galvão)

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Escolha uma definição de felicidade. Se tu tens em mãos a matéria prima Erga como se ergue uma cidade. Então nela, fielmente imprima:
Tuas mais razoáveis necessidades. Apesar das dificuldades, não se deprima. Muito além, do fútil e das vaidades, Ou de qualquer possível autoestima.
Qualquer força, que nos destina: Crenças, ordens, leis ou verdades, Para além das superestimas Ou mesmo das cruéis realidades.
Escolha uma definição de Felicidade. Felicidade permanente é um engodo Imposta pelos credos e a sociedade... Felicidade sempre e não o tempo todo!


Copyright © 2017 by Emanuel Galvão
All rights reserved.



O Tempo (Roberto Pompeu de Toledo)

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Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.


Outro Natal (Paulo Miranda Barreto)

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outro Natal se passou
igual a outros iguais. . .
’Jesus nasceu, sofreu, ressuscitou
deixou-nos sua Luz . . . não voltou mais’

faz muito tempo . . . e, o que se transformou?
ainda guerreamos . . . pela paz . . .
não nos amamos mais do que Ele amou . . .
seguimos egoístas . . . imorais

alheios às Lições que Ele ensinou. . .
e cheios desse orgulho contumaz
que o Cristo, claramente condenou . . .
(por bem saber o mal que ele nos faz)

em nossos corações . . . o que vingou?
o amor de Deus? o fel de Satanás?
após dois mil Natais . . . nada mudou
(seguimos libertando . . . Barrabás).

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*Ilustração de Pawel Kuczynski