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Mostrando postagens com o rótulo poesia

14 de Maio (Lazzo Matumbi)

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No dia 14 de maio, eu saí por aí Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir Levando a senzala na alma, eu subi a favela Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia Um dia com fome, no outro sem o que comer Sem nome, sem identidade, sem fotografia O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver No dia 14 de maio, ninguém me deu bola Eu tive que ser bom de bola pra sobreviver Nenhuma lição, não havia lugar na escola Pensaram que poderiam me fazer perder Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu Será que deu pra entender a mensagem? Se ligue no Ilê Aiyê Se ligue no Ilê Aiyê Agora que você me vê Repare como é belo Êh, nosso povo lindo Repare que é o maior prazer Bom pra mim, bom pra você Estou de olho aberto Olha moço, fique esperto Que eu não sou menino Lazzo Matumbi 14 de Maio Congresso

Minha Pátria (Lêdo Ivo)

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Minha pátria não é a língua portuguesa. Nenhuma língua é a pátria. Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci e o vento que sopra em Maceió. São os caranguejos que correm na lama dos mangues e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho. Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas, os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar, e o céu encurvado pelas constelações. Minha pátria são os apitos dos navios e o farol no alto da colina. Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa. São os estaleiros apodrecidos e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e impaludados não param de tossir e tremer nas noites frias e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores e as résteas de cebola enrodilhadas na treva e a chuva que cai sobre os currais de peixe. A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria. Nenhuma língua enganosa é a pátria. Ela ser

A Partícula (Lêdo Ivo)

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  Nada sei sobre mim, quem sou ou de onde vim. Não sei para onde vou quando me for para onde. Não sei se esse ir me expõe ou se esse ir me esconde. Sei apenas que o sol clareia meu jardim onde uma lagartixa me separa de mim. Ignoro quem é este que diz ou é ser eu. E já que nada sou, nada tenho de meu, e nem mesmo de mim, como ser um pronome, essa ínfima partícula que de si e dos outros tem tanta sede e fome e em lenta combustão se queima e se consome? Nem mesmo a vida resta quando a gente regressa do passeio à floresta. Tudo na vida some. E o vento sopra e leva as letras do meu nome.

O Mundo (Eduardo Galeano)

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Um homem da aldeia de Negu no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. — O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

O Professor Reinventado (Emanuel Galvão)

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Com um trabalho muito organizado Do plano de aula a sua caderneta Seja lendo para ficar atualizado Ou fazendo uso incansável da caneta Um verdadeiro empreendedor Que do ofício não se ausenta Por ser um agente transformador O professor sempre se reinventa   Adequando-se as regras da legislação Com sua rígida e pesada norma Acreditando que com a educação O mundo aprimora e transforma Aguerrido e muito batalhador Toda intempérie ele enfrenta Por ser um agente transformador O professor sempre se reinventa   Com o aprendizado sempre em mente Na aula a distância ou presencial Se preciso for, até alternadamente Seu objetivo último ou principal É ser um excelente formador De tudo se utiliza e experimenta Por ser um agente transformador O professor sempre se reinventa   Carente de uma maior valorização Não se acomoda ou se entrega Tem na sua abnegada profissão Amor que cultiva e sempre rega Porque quando se faz com amor A recompensa

Minha Arma é a Esperança (Rosilania Macedo)

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*Paulo Freire 100 anos "A esperança faz parte da natureza humana." O ser humano não deve negá-la. Ela "uma espécie de ímpeto natural possível, " necessária. Ele, o ser humano, deve esperanciá-la. Mesmo "em torno de um sem-número de problemas", A "luta política em favor da recriação da sociedade" justa, Deve ter sempre lugar nas práticas éticas e humanas, a favor daqueles que na sociedade vivem condições injustas. "A educação é política", Independentemente do lado em que se está! A diferença é que um lado quer justiça social e o outro que a sociedade fique como estar. A educação é uma forma de intervenção no mundo." 'se refere "as mudanças radicais" para o bem, não a disputa Com isso, a nossa arma deve ser a esperança. Vem pra luta! *As partes aspeadas foram retiradas da obra Pedagogia da Autonomia imagem de Freire: https://www.asle.netbr/as-licoes-de-paulo-freire/ Rosilania Macedo da Silva é Pedagoga e mestre em Educa

Poema Didático (Mia Couto)

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Já tive um país pequeno tão pequeno que andava descalço dentro de mim. Um país tão magro que no seu firmamento não cabia senão uma estrela menina, tão tímida e delicada que só por dentro brilhava. Eu tive um país escrito sem maiúscula. Não tinha fundos para pagar a um herói. Não tinha panos para costurar bandeira. Nem solenidade para entoar um hino. Mas tinha pão e esperança para os viventes e sonhos para os nascentes. Eu tive um país pequeno, tão pequeno que não cabia no mundo. Mia Couto, No livro Tradutor de Chuvas, publicado em 2011, reúne mais de 60 poemas.

Intervalo (Carlos Pronzato)

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  Te tomo da mão Respiro teu aroma de metais Ferrugem ou carmim Tua boca é uma engrenagem frenética De flores Nosso intervalo é tão curto Que as palavras voam Como pregos cintilantes Em rosas de cobre Beijos martelados no alumínio Dos teus lábios A sirene interrompe A brisa do pátio E a paisagem do teu rosto Nos devolve ao estrondo À diária exploração Do cartão de ponto. Copyright © 2021 by Carlos Pronzato All rights reserved  

Poeminha Vulgar (Emanuel Galvão)

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Eu sou um papel higiênico Todo enrolado Ali, bem do lado da latrina As pessoas fazem as merdas... Eu cumpro o meu papel O papel, de papel higiênico Vou lá e limpo a merda que fizeram Daí, tudo bem... pra eles. Mas, um pedaço de mim Fica na lixeira. Eles vão me consumindo... Fazendo outras merdas... Mais um pedaço de mim... Deus que me perdoe A lágrima que inunda meu ser Meu ser desapontado... Eles não usam papel molhado. Copyright © 2007 by Emanuel Galvão All rights reserved. do livro Flor Atrevida pag. 72 - Editora Quadri Office

Timidez - Eu Que Não Sei Falar de Amor (Emanuel Galvão)

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  Talvez haja um pouco de temor Mas preciso então esclarecer Revelar-me parece libertador Senão, sou capaz de padecer Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Meu corpo deseja teu calor Volúpia que me faz enlouquecer Com fúria e sem nenhum pudor E a certeza de não te esquecer Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você As flores exalam seu olor Antes que possam fenecer O sol fornece seu calor Antes da noite o esconder  Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Das paixões sou colecionador Mas você me fez amolecer Com seu jeitinho encantador E beleza que não posso descrever Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Escrever é algo desafiador Mas que se pode aprender Amante não tem procurador Ninguém pode substabelecer Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Menina te falo com muito ardor Para você jamais me esquecer Ser poeta ou ser um trovador Nem se compara em te satisfazer Eu que não sei falar de amor Resolvi es

Pacto Com a Felicidade (Orlando Alves Gomes)

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De hoje em diante todos os dias ao acordar, direi: Eu hoje vou ser FELIZ ! Vou lembrar de agradecer ao sol pelo seu calor e luminosidade, sentirei que estou vivendo, respirando. Posso desfrutar de todos os recursos da natureza Gratuitamente. Não preciso comprar o canto dos pássaros, nem o murmúrio das ondas do mar. Lembrarei de sentir a beleza das árvores, das flores. Vou sorrir mais, sempre que puder. Vou cultivar mais amizades e neutralizar as inimizades. Não vou julgar os atos dos meus semelhantes ou companheiros. Vou aprimorar os meus. Lembrarei de ligar para alguém para dizer que estou com saudades ! Reservarei minutos de silêncio, para ter a oportunidade de ouvir.  Não vou lamentar nem amargar as injustiças. Vou pensar no que posso fazer para  Diminuir seus efeitos. Terei sempre em mente que um minuto passado,  não volta mais, vou viver todos os minutos proveitosamente. Não vou sofrer por antecipação prevendo futuros incertos, nem com atraso,  lembrando de coisas sobre as quais

Mulher Sem Limites (Romance de Flor) (Emanuel Galvão)

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Você já figura no meu coração Descalça e sem roupa como num salão Tão bela e tão doce, mulher sem limites Quem dera que fosse... E assim exististes Dançando ao ritmo de minha pulsação.   Não cabes em rótulos, por que caberias? Palavras ou versos, talvez te seduza... Então, só então, tu abras tua blusa E ardente, insana, tu permitirias Volúpias intensas de terna paixão.   Porque minha pele não te resistiria Es bela não nego, sou tão negligente Foras apenas bela, mas és inteligente Não encontro virtude que assim a alcance Melhor te amar, assim de relance   Sem ilusões, sem juras de amor Romance de flor, sem dor sem espinho Caindo as pétalas, restará: odor e carinho Assim em meu sonho, te possuo inteira Te amando pleno, não de qualquer maneira. Copyright © 2020 by Emanuel Galvão All rights reserved. *Foto by: Ana Cruz    

Toda Matéria (Mírian Monte)

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Foto by: Maria Thereza Monte Borges de Souza Pode a morte ser como as velas Navegando o Mucuripe Da canção que ora é festa Com refrão que sempre é triste Ou a flor da moça bela Arremessada do arrecife Para flutuar nas ondas Com a fé que ainda existe Pode a morte ser o gozo Ou o beijo dos amantes Pode a morte ser desgosto De lembrar como era antes Pode a morte ser o sonho Que não se realizou Pode ser o desconforto Do medo e do desamor Sinto a morte percorrendo Minhas veias e artérias E por isso tenho pressa De viver toda matéria E até que eu pereça Provarei cada sabor E quem sabe aconteça O que dizem ser amor

Elogio ao Desejo (Emanuel Galvão)

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A ansiedade toma conta do meu corpo... Espero que teus ditos machuquem minha alma ou provoque gozo. Não entendo a demora das palavras... Mas, acredito que ao ler-me... pretensiosamente teu membro responda, e o sêmen seja a tinta das tuas letras e apresente em mim  um desejo incontrolável de comer tuas frases  e de vê-lo.                                                 (S.L.) A tua nudez me fascina,  E ao ver-te nua de forma tão traquina, Lanço fora as vestes de minha timidez, Para escrever com lábios em tua linda tez. A lascívia, assim como o desejo Não convêm aos sábios... Prova então da língua, cheia de desejo, Louca e sem palavras, nos teus grandes E pequenos lábios. Quase sinto o gosto do verbo em carne viva Pois que paixão tentadora, voraz e tão lasciva Não tem que ter senso, tampouco pejo, Entrego então meu corpo, todo ao teu desejo. Ao ver-te nua... Visão do paraíso... Não sei se faço verso, trovo, improviso Eu, no entanto, emudeço, calo Não se

Olhos (Ademir João da Silva)

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Olhos que prendem como o visgo prende o passarinho Olhos que fazem perder-se o íntimo Olhos nítidos que fisgam para o seu cristalino Neste lago há redemoinhos Que engolem o coração Tesão, tensão, paixão Olhos da medusa? Com certeza olhos da deusa Olhos vivos Olhos craúna O que há no fundo destas minas? Rubis...topázio...destinos Que destino? Náufrago é, quem mergulha neles. Copyright © 2019 by Ademir João da Silva All rights reserved.

Teus Olhos Negros, Tua Tez Morena (Carlos Manuel Arita)

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Fascina-me a brancura da açucena - as flores alvas são as mais bonitas - mas me atraem com forças infinitas teus olhos negros, tua tez morena. Como as flores, também, casta e serena, aos desejos de amar, por certo, incitas, porém só vejo, em ânsias vãs, aflitas, teus olhos negros, tua tez morena e se adorar-te fosse a minha pena, arrastaria tudo, humildemente (a alma, livre da angústia que a condena), para ter-te afinal sempre presente, amaria em silêncio, eternamente, teus olhos negros ... tua tez morena. (Honduras 1912 - 1989)

Acolher (Claudia Lima)

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Dê abraços acolhedores sempre. Só quem já acolheu uma criança pequena no colo E sentiu dela um relaxamento de confiança, de entrega Sabe o que é acolher. Para acolher é necessário Estar pronto a receber, E não é fácil... Porque a troca de energia É via de mão dupla: vai e volta. Quem vai em busca do acolhimento Procura: calor, segurança, aconchego, entrega Chega em busca de um abraço, um colo... Por muitos motivos: dor, perda, decepção, estresse, coração partido e muito mais... Quem acolhe tenta ser esponja grande e macia, Cheia de energia positiva Para acolher, e acolher bem.  Copyright © 2019 by Claudia Lima All rights reserved.

Os Leitores (Emanuel Galvão)

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Os tidos normais Leem com os olhos A paisagem pelas palavras Criadas Os cegos Leem com dedos E com bastante tato Percorrem os corpos das páginas De letras tatuadas Os surdos Leem as libras Os livros E os lábios Os emotivos Têm seus motivos Para lerem sinestesicamente Hão de concordar aos sábios Os malucos como eu Que a vida tanto inquieta No ofício de ser poeta Despretensiosamente Lê o que outro sente E os amantes Ao contrário das cartomantes Das quiromantes Leem além das cartas e das mãos O que não está oculto ao coração Algo que do corpo se revele Leem os desejos segredados... Em cada tipo de pele. Copyright © 2015 by Emanuel Galvão  All rights reserved. Elogio ao Desejo & Outras Palavras / Emanuel Galvão, Maceió - AL. - Quadrioffice Editora, Quatro Barras, PR, 2015. Pag. 36

23 Horas (Ademir João da Silva)

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Luzes da cidade Gritos e gaitadas ao longe O trem de carga das 23 horas Esperança Ânsia Uma e outra reclamação Mosquitos amassados Asas quebradas Pernas quebradas Muriçocas fodidas no chão Voo repentinamente abortado Plasma não sugado Noite da cidade E uma lua nebulosa se ergue Preguiçosa Por trás de um pálido e fino lençol De nuvens E a baga tá lá, fria Os arredores, desertos de ninguém Com árvores negras, degraus e bancos de pedra Igualmente negros e despreocupados. São 23 horas. Copyright © 2019 by Ademir João da Silva All rights reserved.

Poema de Amor Para Ninguém em Especial (Mark O'Brien)

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Deixe-me tocá-la com minhas palavras Pois minhas mãos inertes pendem como luvas vazias Deixe minhas palavras acariciarem seu cabelo deslizar tuas costas abaixo e brincar em teu ventre pois minhas mãos, de voo leve e livre como tijolos ignoram meus desejos e teimosamente se recusam a tornar realidade minhas intenções mais silenciosas Deixe minhas palavras entrarem em você carregando tochas aceite-as voluntariamente em seu ser para que possam te acariciar devagarinho por dentro. Mark O’Brien Biografia Mark O’Brien (1949-1999) é um Poeta e jornalista americano. O’Brien contraiu poliomielite em 1955 e passou o resto da sua vida paralisado, com o auxílio de um pulmão de ferro. Mas isso não o impediu de lutar por se exprimir. E fê-lo como escritor de artigos e de poesia. Foi também um acérrimo defensor de pessoas com algum grau de incapacidade. Foi co-fundador de uma editora – Lemonade Factory – que dedicou o seu trabalho à divulgação de poesia escr

A Reunião dos Bichos (Antônio Francisco)

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Eu vinha de Canindé  Com sono e muito cansado Quando vi, perto da estrada Um juazeiro copado. Subi, armei minha rede, Fiquei nele deitado. Como a noite estava linda Procurei ver o cruzeiro, Mas cansado como estava Peguei no sono ligeiro, Só acordei com os gritos Debaixo do juazeiro. Quando olhei para baixo Eu vi um porco falando, Um cachorro e uma cobra E um burro reclamando, Um rato e um morcego E uma vaca escutando. O porco dizia assim: -“Pelas barbas do capeta! Se nós ficarmos parados A coisa vai ficar preta... Do jeito que o homem vai Vai acabar o planeta. Já sujaram os sete mares Do Atlântico ao mar Egeu, As florestas estão capengas, Os rios da cor de breu E ainda por cima dizem Que o seboso sou eu. Os bichos bateram palmas, O porco deu com a mão, O rato se levantou E disse: – “Prestem atenção, Eu também já não suporto Ser chamado de ladrão. O homem, sim, mente e rouba, Vende a honra, compra o nome. Nós só pegamos a sobra Daquilo