Poiesis (Glória Vara)

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 Poesia é quando a tarde tropeça no azul, e da queda nasce um verso  com cheiro de laranja e sombra de nuvem, que se escreve sozinho no guardanapo do vento. Poesia é quando o tempo esquece o relógio, e no miolo de um silêncio qualquer, brota uma palavra de asa curta, mas com coragem de voo. Poiesis é o instante em que a pedra decide florir, sem pressa, sem plano, só porque ouviu o sussurro da terra dizendo: “vai”. Copyright © 2026 by Glória Vara All rights reserved. Veja mais da autora aqui

ANTESSOCIAL (Isaac Souto)

 


"Não há mais inocente,

 tem esperto ao contrário".

 Qualquer um pode ficar perturbado,

 o além do além não é lugar.


Mas onde há igualdade?


Bonito é o que se fez e o que se faz

 de feio nessa "incivilização".

 Não cale, enfie o seu palavrão

 no fundo de uma canção,

 porque no meio do poço

 há luz, muita luz e osso.


"A chinela é minha comida"

 A minha pobreza é nossa,

 mas eu caio pra frente - descalçada e sobrevivida.

Não sei nada de ambição,

 às vezes, até o coração empenho,

 noutras, ele é justo o que tenho

 pra acolher tanta injustiça.


Ontem à noite fui à missa,

 pediram: ninguém que se revolte!

 Eu disse:

 Nasci discordando da vida,

 não devo um centavo à morte!


*À Dona Estamira, que disse: "Eu não concordo com a vida e muito mais.

Copyright © 2025 by Isaac Souto All rights reserved.



Dona Estamira, cujo nome de batismo era Estamira Gomes de Sousa, foi uma senhora que viveu grande parte da sua vida no aterro sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, como catadora de lixo, e se tornou a protagonista de um premiado documentário brasileiro de 2004 sobre sua vida e sua luta. Com transtornos mentais, ela se destacava por seu carisma, seu caráter maternal e sua lucidez em meio aos destratos sociais que a marcaram, morrendo em 2011 aos 70 anos em consequência de uma infecção generalizada. 

@defensoriaemdiversidade




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