O Beijo de Gustav Klint (fragmento) Eu acho que os beijos são dados na boca porque é onde brotam as palavras. Se eu te beijasses a ponta dos dedos, estaria buscando uma carícia; se te beijasse a sola do sapato, estaria buscando um caminho. Se te beijasse as pálpebras enquanto dormes, estaria pedindo permissão para entrar nos teus sonhos, mas estou te beijando os lábios, porque quero ouvir minhas palavras saírem de ti, outra vez. Se te beijasse a planta dos pés, buscaria um passo em falso. Se te beijasse a parte interna do cotovelo, buscaria teus esconderijos. Se te beijasse a sombra, não saberia o que busco, mas estaria tão perto. Se te buscasse essa noite, beijaria cada estranho até te encontrar. Outra vez. Se eu te beijasse, seria como algo escorregadio sobre uma tela de carne que transborda e se espalha pelas vigas da minha casa. Subiria escorregadia por um muro, separando a pele da carne que se injeta em uma estrutura impessoal chamada nome. Estaria consumida antes mesmo de abrir ...
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Estrangeirismo ( Carlos Silva / Sandra Regina)
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Outro dia, me convidaram para irmos ao MC DONALD’S, comermos CHEESE BURGER!...
O salão estava lotado e fizemos os pedidos através de um tal de... DRIVE THRU. Os colegas, percebendo a minha irritação, disseram:
-- Se tu tiver com pressa, eles têm um sistema de DELIVERY, maravilhoso!!!
Desacostumado com este linguajar, chamei os cabras:
- Vâmo s’imbóra!
Seguimos pela avenida HENRIQUE SCHAUMANN, onde pude observar um OUTDOOR. Estava escrito: CHINA IN BOX, e uma seta indicativa: PARKING. Nós não paramos por lá não.
Seguimos mais adiante, avistamos um restaurante bonito e luxuoso, e na porta de entrada, uma luz NEONpiscando escrita: OPEN.
Quando olhei pro chão, pude ver, estampado, um capacho com a bandeira americana, me convidando:WELLCOME.
Ao adentrarmos naquele recinto, eu pude observar, na sua decoração e nas paredes, que estava escrito assim:ICE CAKE, CHEESE EGG, CHEESE BURGER e FAST FOOD.
Eu pensei comigo: “FOOD" na Bahia a gente USA numa outra situação…
Do meu lado esquerdo, uma garota tomava uma cerveja numa lata vermelha e azul, cuja marca era BUDWEISER. O camarada que lhe acompanhava tomava sua LONG NECK... HEINEKEN.
Do meu lado direito, uma loira bonita, peituda, falava pro cabra com voz sensual assim:
-- Eu trabalho numa RELAX FOR MAN…
E ele pergunta pra ela:
-- Fica próximo do Motel MY FLOWERS? E ela lhe responde:
-- Não BABY, fica junto à NIGHT CLUB WONDERFUL PENETRATION!
A fome aumentava - juntamente com a raiva - e eu não sabia se pedia um HOT DOG, ou um simples cachorro-quente.
Emputecido mais uma vez com aquela situação, chamei os caboclos:
- Vâmo s’imbóra!
Na saída, o manobrista nos recebe e nos entrega as chaves do nosso possante veículo – um fusca 68 fabricado em Volta Redonda na época do presidente JUSCELINO KUBI ... TISCHEK.
Ele olha pra mim e me diz:
-- THANK YOU SIR!... AND HAVE A GOOD NIGHT!
E eu, usando toda minha simplicidade e educação que aprendi no Sertão da Bahia, olhei pra ele e lhe disse:
- Vá PRA PUTA QUE LHE PARIU!!!
Cantando:
Eu gostaria de falar com o Presidente Pra cuidar melhor da gente Que vive neste país. Nossa gramática está tão dividida Tem gente falando happy... Pensando que é feliz!
Acabaria com esse tal e estrangeirismo Que deturpa nossa língua E muda tudo de uma vez! E os mendigos, que hoje vivem na calçada, Ensinariam ao brasileiro... Que aqui se fala o Português!
Eu sou simples, sou composto, Oculto, indeterminado, Particípio, eu sou gerúndio, Sou fonema, sim senhor! Adjetivo, predicado, eu sou sujeito, Ainda trago no meu peito... Este país, com muito amor.
Eu sou simples, sou composto, Oculto, indeterminado, Particípio, eu sou gerúndio, Sou fonema, sim senhor! Adjetivo, predicado, eu sou sujeito, Ainda trago no meu peito... Este país, com muito amor.
Lá no cento da cidade, Quase que eu morri de fome, Tanta coisa, tanto nome, Eu sem saber pronunciar! É fast food, delivery, self-service, Hot-dog, catchup… Eu só queria almoçar.
Lá no cento da cidade, Quase que eu morri de fome, Tanta coisa, tanto nome, Eu sem saber pronunciar! É fast food, delivery, self-service, Hot-dog, catchup…
Eu gostaria de falar com o Presidente Pra cuidar melhor da gente Que vive neste país. Nossa gramática está tão dividida Tem gente falando happy Pensando que é feliz!
Acabaria com esse tal e estrangeirismo Que deturpa nossa língua E muda tudo de uma vez! E os mendigos, que hoje vivem na calçada, Ensinariam ao brasileiro... Que aqui se fala o Português!
Eu sou simples, sou composto, Oculto, indeterminado, Particípio, eu sou gerúndio, Sou fonema, sim senhor! Adjetivo, predicado, eu sou sujeito, Ainda trago no meu peito... Este país, com muito amor.
Eu sou simples, sou composto, Oculto, indeterminado, Particípio, eu sou gerúndio, Sou fonema, sim senhor! Adjetivo, predicado, eu sou sujeito, Ainda trago no meu peito... Este país, com muito amor.
Lá no cento da cidade, Quase que eu morri de fome, Tanta coisa, tanto nome, Eu sem saber pronunciar! É fast food, delivery, self service, Hot dog, catchup… Eu só queria almoçar.
Lá no cento da cidade, Quase que eu morri de fome, Tanta coisa, tanto nome, Eu sem saber pronunciar! É fast food, delivery, self service Hot-dog, catchup… Meu Deus, onde é que eu vim parar!...
O Beijo de Gustav Klint (fragmento) Eu acho que os beijos são dados na boca porque é onde brotam as palavras. Se eu te beijasses a ponta dos dedos, estaria buscando uma carícia; se te beijasse a sola do sapato, estaria buscando um caminho. Se te beijasse as pálpebras enquanto dormes, estaria pedindo permissão para entrar nos teus sonhos, mas estou te beijando os lábios, porque quero ouvir minhas palavras saírem de ti, outra vez. Se te beijasse a planta dos pés, buscaria um passo em falso. Se te beijasse a parte interna do cotovelo, buscaria teus esconderijos. Se te beijasse a sombra, não saberia o que busco, mas estaria tão perto. Se te buscasse essa noite, beijaria cada estranho até te encontrar. Outra vez. Se eu te beijasse, seria como algo escorregadio sobre uma tela de carne que transborda e se espalha pelas vigas da minha casa. Subiria escorregadia por um muro, separando a pele da carne que se injeta em uma estrutura impessoal chamada nome. Estaria consumida antes mesmo de abrir ...
Eu te desejo vida, longa vida Te desejo a sorte de tudo que é bom De toda alegria ter a companhia Colorindo a estrada em seu mais belo tom Eu te desejo a chuva na varanda Molhando a roseira pra desabrochar E dias de sol pra fazer os teus planos Nas coisas mais simples que se imaginar Eu te desejo a paz de uma andorinha No vôo perfeito contemplando o mar E que a fé movedora de qualquer montanha Te renove sempre, te faça sonhar Mas se vier as horas de melancolia Que a lua tão meiga venha te afagar E a mais doce estrela seja tua guia Como mãe singela a te orientar Eu te desejo mais que mil amigos A poesia que todo poeta esperou Coração de menino cheio de esperança Voz de pai amigo e olhar de avô Ouça a Música
Se quiser plantar saudade Escalde bem a semente Plante num lugar bem seco Onde o sol seja bem quente Pois se plantar no molhado Quando crescer mata gente
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões - é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto." Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Ele...
De vez em quando o diabo me aparece e temos longas conversas. Em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa e racional, bem vestido, apreciador de desodorantes finos, me surpreende sempre pela lógica dos seus argumentos. Nada de futilidades. Só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu com Deus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na sua mão direita o martelo e, na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: martelar as certezas, ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste. Já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi: - Que é isto que você vai bater? Acho que vai se partir em mil pedaços…
Ora, se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha, chamada negra Fulô. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama pentear os meus cabelos, vem ajudar a tirar a minha roupa, Fulô! Essa negra Fulô Essa negrinha Fulô! ficou logo pra mucama pra vigiar a Sinhá, pra engomar pro Sinhô! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) vem me ajudar, ó Fulô, vem abanar o meu corpo que eu estou suada, Fulô! vem coçar minha coceira, vem me catar cafuné, vem balançar minha rede, vem me contar uma história, que eu estou com sono, Fulô! Essa negra Fulô! "Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. Entrou na perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cinco". Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! Vai botar para dormir esses meninos, Fulô! "minha mãe me penteou minha mad...
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências... A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os p...
Deus pede estrita conta de meu tempo. E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta. Mas, como dar, sem tempo, tanta conta Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’
Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso.
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