Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

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 Apesar dos imprevistos que o cotidiano espalha pelo caminho como pedras súbitas, capazes de nos deter os passos e suspender o fôlego, eu permaneço. Com a mesma coragem indomável, com a ousadia que me acende por dentro, semeio utopias no escuro da terra e confio — há sempre um amanhecer à espera de quem insiste. Escolho olhar o mundo com pupilas de poesia: lentes invisíveis que transfiguram o peso em voo e o caos em constelação. É ela quem me sopra os segredos da magia e me ensina a atravessar abismos sem me perder de mim. Sobretudo nos dias em que o coração arde em silêncio, grita para dentro e nenhuma mão alcança, faço do próprio peito um farol aceso — e sigo, porque a esperança aprende comigo a nunca se apagar. Copyright © 2026 by Adriano Roberto Alves da Silva All rights reserved.

O MELHOR PRESENTE (Onildo Barbosa)




Meu deus se o senhor tiver
Um presente prá me dar
Se a caso for salvação,
Nem precisa me salvar!
Quer me dá mesmo um presente
Deixe eu voltar novamente
Prá viver no meu lugar.

Eu já tô ficando velho
Não tenho a mesma saúde
Deixe eu ver a minha terra,
Por favor, deus, me ajude!
Deixe eu andar nos caminhos,
Escutando os passarinhos,
Tomando banho de açude.

Deixe-me sentir o cheiro
Da fumaça do fogão,
Assando milho na brasa
Da fogueira de são joão
Comer xerêm na tigela
Debruçar-me na janela,
Do antigo casarão.

Desde que eu era mocinho
Que deixei o meu torrão,
Tentando viver melhor
Mas tudo foi ilusão
De cidade, por cidade,
Passando dificuldade,
Vergonha e decepção.

Já criei duas famílias
Sem direito a sossegar,
Tudo que arranjei foi pouco
Não pude economizar
Agora vivo tristonho
Toda vez que durmo sonho
Voltando ao meu lugar.

Tem sonho que até parece
Que eu to mesmo acordado
Vendo mamãe na cozinha,
Meu pai tratando do gado,
O sonho é tão verdadeiro,
Que eu chego a sentir o cheiro
Das coisas do meu passado.

Sinto o cheiro de água nova
No tempo de invernada
Ouço o barulho do vento
No ritmo da trovoada
O barulho da goteira
O rouxinol na biqueira,
Cheiro de terra molhada...

Então deus, aceite a troca!!
Me faça essa gratidão,
Eu prometo ao senhor
A minha satisfação
Ao invés de me fazer santo,
Deixe eu voltar pro meu canto
No lugar de salvação.

Deixe eu ver serra do gado,
Como era antigamente,
O velho grupo escolar,
A igrejinha na frente,
Assuma este compromisso,
Se o senhor fizer isso,
Já é o melhor presente.

Meu prazo de validade
Já está quase vencido
Juro que se eu não voltar
Pro lugar que fui nascido,
Nada prá mim tem valor
Posso jurar ao senhor
Tudo que fiz foi perdido.

Eu quero acordar cedinho,
Sem ter preocupação
De mercado prá pagar,
Aluguel e prestação,
Quero a paz da minha terra,
E esquecer essa guerra,
Onde tudo é ilusão.

Quero olhar pro céu a noite,
E ver a lua brilhar
De manhã sentir o sol
Começando a clarear
Dê-me esse resto de vida
Com minha família unida
Vivendo no meu lugar.

Meu deus, eu vou terminar
Desculpe a minha fraqueza
Mas se eu morrer por aqui,
Você pode ter certeza
Que se isso acontecer,
Meus filhos irão dizer
Papai morreu de tristeza.




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