CASA SOMENTE CANTO / CASA SOMENTE PALAVRA (Gonzaga Leão)
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“Eu sei que a casa escutava
eu sei que a
casa sentia
pois quando
falava a casa
a casa se
comovia”
Gonzaga Leão
LEÃO, Luiz Gonzaga. Casa somente canto -
Casa somente palavra. São Paulo:
Escrituras,
1995. 85 p. Capa e uma sobrecapa de papel manteiga. Formato
18x13 cm
POEMA UM
Se você deseja
com seu coração
ou se é com seu sonho
— sua solidão —
o que mais almeja,
se é com seu corpo
e sua peleja
que realmente quer
fazer sua casa,
não importa a forma
que ela possa ter,
pois a casa é
para ser sentida
para ser vivida
para ser amada
e ser possuída
não para se ver.
(...)
Mas se você quer
se deseja dar-se
por completo à casa
dê primeiramente
todos os seus pertences:
dê sua camisa
quando mais suada
dê os seus sapatos
quando mais usados
e a gravata quando
mais amarrotada
e o seu terno quando
ele mais surrado,
pois nós doamos
se nós nos gastamos
quando as coisas nossas
do cotidiano
junto a nós se gastam.
(,,,)
Para que a casa
tenha nosso jeito
e dos nossos corpos
tenha seus trejeitos
e assim bem a casa
seja com efeito
casa construída
tendo nós por teto
nós por dependências
tendo nós por chão
nós por objeto.
POEMA TRÊS
O que me fascina
numa casa são
suas cumeeiras
e dos seus jardins
quando em floração
suas trepadeiras.
Como nas estradas
o que mais me agrada
são suas ladeiras
— tanto nas subidas
quanto nas descidas
pois é sempre assim
que tem sido a vida
minha vida inteira.
*Um livro fundado no tema proposto: a habitalibilidade da
casa, sua interrelação com o ocupante. Unidade perfeita. “Casa somente canto/
Casa somente palavra” é de 1985, que eu descobri na estante de uma livraria de
Maceió. Tem algo de João Cabral de Melo Neto, sem a secura do mestre
pernambucano; ao contrário, Gonzaga Leão é úmido, não abre mão do lirismo, mas
ambos são engrenheiros do verso, compondo sobre um tema obsessivamente. Gonzaga
Leão é reiterativo com J.C., pelos meandros do discurso que não abandona
a descrição, sem descrever, por circunlóquios verbais: “Partir como sei bem
partir de mim”, sem cortar as rimas, que pautam o ritmo. “Mas como pode/ ficar
assim/ se a casa existe/ dentro de mim?” Antônio Miranda
Alguém já me havia dito que a vida é bem representada pelo aparelho que fica ao lado do leito dos pacientes, principalmente os da UTI. Aquele que faz um sobe-desce e determina o ritmo do coração, um gráfico para dizer a quantas anda nosso batimento cardíaco. A vida tem seus altos e baixos, vejam, suas árduas subidas e os santos ajudando ladeira a baixo, como diz o ditado. Naquele aparelho o que não se quer é uma linha reta, horizontal a sinalizar que descansamos. E na batalha da vida, pela vida e com a vida, os amores. Esses que também tem aclives e declives e podem ser difíceis para alguns, como estas palavras. Afinal, a vida não é para amadores. E eu direi: a vida é para amantes. Esses que de conversa em conversa, vão alimentado de saudades um relacionamento, esses temperados com sorrisos, carinhos e gentilezas. São esses amores silenciosos, com meno...
O Beijo de Gustav Klint (fragmento) Eu acho que os beijos são dados na boca porque é onde brotam as palavras. Se eu te beijasses a ponta dos dedos, estaria buscando uma carícia; se te beijasse a sola do sapato, estaria buscando um caminho. Se te beijasse as pálpebras enquanto dormes, estaria pedindo permissão para entrar nos teus sonhos, mas estou te beijando os lábios, porque quero ouvir minhas palavras saírem de ti, outra vez. Se te beijasse a planta dos pés, buscaria um passo em falso. Se te beijasse a parte interna do cotovelo, buscaria teus esconderijos. Se te beijasse a sombra, não saberia o que busco, mas estaria tão perto. Se te buscasse essa noite, beijaria cada estranho até te encontrar. Outra vez. Se eu te beijasse, seria como algo escorregadio sobre uma tela de carne que transborda e se espalha pelas vigas da minha casa. Subiria escorregadia por um muro, separando a pele da carne que se injeta em uma estrutura impessoal chamada nome. Estaria consumida antes mesmo de abrir ...
Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão. Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar. O mês de agosto tem muito a ensinar. Porque agosto é mês...
Eu não gosto de você, Papai Noel! Também não gosto desse seu papel de vender ilusões à burguesia. Se os garotos humildes da cidade soubessem do seu ódio à humildade, jogavam pedra nessa fantasia. Você talvez nem se recorde mais. Cresci depressa, me tornei rapaz, sem esquecer, no entanto, o que passou. Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente e a noite inteira eu esperei, contente. Chegou o sol e você não chegou. Dias depois, meu pobre pai, cansado, trouxe um trenzinho feio, empoeirado, que me entregou com certa excitação. Fechou os olhos e balbuciou: “É pra você, Papai Noel mandou”. E se esquivou, contendo a emoção. Alegre e inocente nesse caso, eu pensei que meu bilhete com atraso, chegara às suas mãos, no fim do mês. Limpei o trem, dei corda, ele partiu dando muitas voltas, meu pai me sorriu e me abraçou pela última vez. O resto eu só pude compreender quando cresci e comecei a ver todas as coisas com realidade. Meu pai chegou um dia e disse, a seco: “Onde é que está aquele ...
Palavras são como estrelas facas ou flores elas têm raízes pétalas espinhos são lisas ásperas leves ou densas para acordá-las basta um sopro em sua alma e como pássaros vão encontrar seu caminho. <!—anuncio –>
Para começar a semana Visitei meu amigo Mário Refiro-me ao Quintana E para meu poema ficar danado de bom Parceria com Drummond Para ele não conter vícios Parceria com Vinicius E ser amigo do rei Nessa grande brincadeira Acompanhei Manuel Bandeira Também entre as pedras Cresceu minha poesia Cresceu com essa menina Grande Cora Coralina Poesia não precisa de motivo Basta ler em Ledo Ivo Quero iluminar de cima Acendendo lampiões Como fez Jorge de Lima Fazer um poema elegante Sofisticado, bacana Como faz o Afonso O Romano de Sant’anna Fazer poesia que arde Como faz Bruna Lombardi Não escrever coisa atoa Como fez Fernado Pessoa Fazer veros de quilate Como o Olavo Bilac Poema que seja casa Grande como uma mansão Como ergueu Gonzaga Leão Poema de morte e vida Severina vida sem teto Trabalhar no mesmo tema Faze grande o meu poema Como João Cabral de melo Neto Poema que a boca escarra E que escreve com a mão Que afaga e apedreja Sem flores e seus arranjos Como fez Augusto dos Anjos E na Can...
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências... A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os p...
Se quiser plantar saudade Escalde bem a semente Plante num lugar bem seco Onde o sol seja bem quente Pois se plantar no molhado Quando crescer mata gente
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