A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

A FACE DA MÚSICA (Socorro Monteiro)


A música toma a forma de fumaça azulada no infinito.
Adentra aos nossos ouvidos com uma grande maciez.
Se a audição enxergasse, a veria nas cores do arco-íris.
Se a pele a tocasse, a sentiria um manto drapeado,
transparente e sedoso, com o poder de acariciar o corpo.

Tem a imponência do amor e a leveza da pluma.
A música possui as cores de todas as borboletas.
Nela, estão contidos os arranjos de todos os passarinhos.
O florescer de todas as árvores.
O calor aquecedor de todos os ninhos.
Tem o poder de nos transformar, atingindo a alma.
Em fração de segundos, nos transportar ao paraíso.
Num passo de mágica, transplanta a face ao coração...
Expande o apogeu: o esplendoroso sorriso!
Se a música tomasse corpo, seria rio.
Cuja pureza incandescente fotografaria a areia,
com a precisão que a paixão domina o homem.
Suas águas deslizantes em seu leito 
tomariam o percurso inevitável,
como inevitável é a força do amor, 
que estremece os corpos aquecidos,
e deles, faz brotar o milagre da vida! 

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