A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

Dualidade (Elisabeth Wolbeck)



Em tudo nessa vida há
em dois sentidos, dois modos.
Como encima e embaixo,
direita e esquerda,
antônimos e sinônimos,
tanto faz, você escolhe.


Se segue um, abandona o outro.
não há como ser os dois
ao mesmo tempo.
Se é noite, não é dia.
Se é certo, não é errado.
Você é quem manda no seu espaço.

Quem decide se vai ou se fica.
Se gosta ou se detesta.
Em tudo há essa dualidade.
Vida ou morte, azar ou sorte,
Amor ou ódio, começo ou fim.
Eu ou você.
Será que vamos nos entender?
Alegres ou tristes.
Será que podemos ser felizes?

Opostos se atraem,é o que dizem.
Como podem reinar ao mesmo tempo
sol e lua?
céu e inferno?
calor e frio?
Não pode meu ser estar assim...
Ora cheio ,ora vazio.
São duplas que não se completam.
Não formam um, uno, único.
Verdade ou mentira?

É preciso entender essa razão
de sempre haver o outro lado da moeda.
Ou cara ou coroa.
Por mais semelhantes que possam ser,
o jovem não é o velho,
nem o novo é o usado.

Em tudo há essa dualidade
por isso que acredito
Que se há o temporário e passageiro,
há de existir a eternidade.

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