MEU CHÃO: NORDESTE (Emanuel Galvão)



Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais escuto no ar uma canção
Como hino trazido pelo vento
Que me faz lembrar todo momento
O torrão ardente que me deste
A brisa que sopra em meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais me pego a fazer uma oração
Pra que nunca me esqueça dessa raiz
Que apesar de desprezado no país
Tem cultura bela e inconteste
Essa gente que habita o meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais me arde no peito uma paixão
Um amor tão quente quanto o sol
Colorindo o céu num arrebol
Descansando seu brilho no oeste
Vai se pondo o sol do meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais me dói essa perversa agressão
De que somos um povo ignorante
Que balança a cabeça a todo instante
Se não nos conhece, não se preste
A escarnecer assim do meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Gonzaga, Padre Cicero, Lampião
Patativa do Assaré, “o inteligente”
Representam bem mais a minha gente
Não carece de aprovação lá do sudeste
Tem orgulho dos seus o meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais me perco na imensa amplidão
Da cultura que floresce em minha terra
Cultivando na dor a paz na guerra
Cantando com a força que nos reste
A riqueza musical do meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais me junto aos demais na procissão
Dos que plantam com fé o seu destino
E se orgulha de ser tão nordestino
Que essa terra lhe parece até celeste
O paraíso que é o meu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Mais pelejo em andar na contramão
E protesto contra esse preconceito
De quem sem conhecer só vê defeito
Em um povo que é tão cabra da peste
Nordestino que idolatra o seu nordeste.

Tanto mais me aproximo do meu chão
Quando da hora que todos partirão
Envolvido na terra que me cobre
Partirei com o coração mais nobre
Orgulhoso da terra que me veste
Abraçado até o fim pelo nordeste.


Copyright © 2015 by Emanuel Galvão
All rights reserved. 

Do Livro Elogio ao Desejo & Outras Palavras



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