Mulher Sem Limites (Romance de Flor) (Emanuel Galvão)

Imagem
Você já figura no meu coraçãoDescalça e sem roupa como num salãoTão bela e tão doce, mulher sem limitesQuem dera que fosse... E assim exististesDançando ao ritmo de minha pulsação.Não cabes em rótulos, por que caberias?Palavras ou versos, talvez te seduza...Então, só então, tu abras tua blusaE ardente, insana, tu permitiriasVolúpias intensas de terna paixão.Porque minha pele não te resistiriaEs bela não nego, sou tão negligenteForas apenas bela, mas és inteligenteNão encontro virtude que assim a alcanceMelhor te amar, assim de relanceSem ilusões, sem juras de amorRomance de flor, sem dor sem espinhoCaindo as pétalas, restará: odor e carinhoAssim em meu sonho, te possuo inteiraTe amando pleno, não de qualquer maneira.
Copyright © 2020 by Emanuel Galvão
All rights reserved.

*Foto by: Ana Cruz

Canto e Palavra (Affonso Romano de Sant'Anna)


                1
Todo homem é vário .
Vário e múltiplo. Eu sou
menos: sou um duplo
e me contento com o que sou.

Fosse meu nome legião,
meu destino talvez fosse
a fossa e o abismo onde
a vara de porcos me emborcou.

Não sou tantos, repito,
sou um duplo
e me contento com o que sou
.

                              2
Sou primeiro o canto
e o que cantou
e só depois – palavra
e o que falou.

Meu corpo testifica este conflito
quando entre palavras e canto
não se  perde ou se dissipa,
mas se afirma
e me redime.

O homem primeiro é o canto.
só depois se organiza,
                 se acrescenta
                 se articula,
se clareia de palavras
e dissipa o que são brumas.

Se o canto é o eu fluindo,
a palavra é o eu pensado.
na palavra eu sempre guio,
mas no canto eu sou guiado.

O canto é o que atinjo
(ocultamente) sem me oferecer,
e quando, de repente,
eu me descubro
                 – sem querer.

A palavra, ao contrário,
é o ato claro,
o talho e o atalho
                – no objeto,

embora seja como o corpo
um ser concreto
e como o mito
               – um ser incerto.

                              3
Quereis saber
como eu faço
ou de mim como eu quero?
É fácil:
                  Cultivo em mim os meus contrários
                   e a síntese dos termos cultivo,
sabendo que o canto é quando
e a palavra é onde ,
e que ela o ultrapassa
mais que o complementa .
E certo que o homem
embora sinta e pense,
                 cante e fale
seus conflitos nunca  vence,
é que eu tranqüilo me exponho,
em fala me traduzo,
em canto me componho:
pois um homem somente se organiza
e completo se apresenta
quando com seus contrários se acrescenta.

                                  4
Difícil é demarcar
o limite, o dia, o instante
em que o homem
de seu canto se destaca.
O limite, o dia, o instante
em que o homem se desfaz
da imponderável música-novelo-e-ovo
e configura-se no gesso,
e do que era um homem-canto
emerge um homem-texto.

Difícil é dizer como e onde,
não o porque,
um dia a gente se observa,
                          Se admira,
Mais que isto:
um dia o ser do homem todo denuncia:
já não se flui
como fluía,
nem se esvai
como esvaía,
edo organismo informe e vago
emerge a vida organizada.

Nada se perdeu
nem jamais se perderia
neste homem que de novo se formou.
Algo duro nele se passa
e em seu trajeto se passou,
quando  indo do canto à palavra
a si mesmo ultrapassou.


*conheça um pouco mais do autor aqui:
*Veja um pouco de sua biografia aqui:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Literatura das Ruas (Sergio Vaz)

MEUS SECRETOS AMIGOS (Paulo Sant'Ana)

A FLOR E A FONTE (Vicente de Carvalho)

Os Votos (Sérgio Jockymann)

Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera! - Miryan Lucy de Rezende

Gritaram-me Negra (Victoria Santa Cruz)

Reinauguração (Carlos Drummond de Andrade)