Poiesis (Glória Vara)

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 Poesia é quando a tarde tropeça no azul, e da queda nasce um verso  com cheiro de laranja e sombra de nuvem, que se escreve sozinho no guardanapo do vento. Poesia é quando o tempo esquece o relógio, e no miolo de um silêncio qualquer, brota uma palavra de asa curta, mas com coragem de voo. Poiesis é o instante em que a pedra decide florir, sem pressa, sem plano, só porque ouviu o sussurro da terra dizendo: “vai”. Copyright © 2026 by Glória Vara All rights reserved. Veja mais da autora aqui

“A mãe será capaz de se esquecer, ou deixar de amar algum dos filhos que gerou?” (Adriana Moraes)


       Acordei meio mexida e carecia de escrever, é que escrevendo, organizo a minha dor... Bem de mansinho ela me chamou e disse: - Ei mulher, me ajude aqui. Eu não me lembro como é que faz pra fechar a porta. Como é, usa a chave? Ao ouvir essa sentença, me levantei, fui até a porta, mostrei como colocar a chave na fechadura e voltei tão atônita. Essa ação tão simples, que qualquer um sabe fazer, ela já não sabe.
Quando fui deitar, tentei me lembrar de algumas coisas que ela me ensinou ao longo da vida. Com ela aprendi a falar (e falar muito), a caminhar, a usar os talheres, a dizer as palavras mágicas. Lembrei-me exatamente do quanto eu a achava incrível fazendo coisas bobas como comprar peixe (ela sabia bem escolher), a capacidade de pechinchar, cálculos matemáticos mentais. “Não conte sua vida para quem não é feliz”, ela me disse mais de uma vez. No meio desse turbilhão de pensamentos, recordei de uma postagem no Facebook que dizia “Mãe deveria ser eterna”. Perdoem-me os que curtiram e até mesmo compartilharam esse post, mas de que adianta mães eternas com filhos mortais? Pior ainda, mães eternas mergulhadas num abismo de esquecimentos? Pois eu digo, é egoísmo nosso querer essa eternidade para os outros. É atentar contra a natureza. Não querer passar pela dor da perda é covardia. Tenho experimentado a perda diariamente. Temos nos perdido uma da outra, e daqui a pouco o que restará em mim é justamente o que faltará nela, lembranças. Adriana Moraes

Comentários

  1. Sua dor é tão expressiva que quase podemos tocá-la em suas palavras. Comovente.

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  2. Senti o mesmo Morena. Realmente comovente.

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