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Dedicado ao poeta Sidney Wanderley:
Não adianta
insistir
Se a torneira está fechada
De que serve o poema ao homem
Se lhe sobra a palavra fome
E lhe falta a palavra vida?
Melhor seria
fechar a torneira
(Como fez o poeta)
Sepultando as metáforas
Transtornando as estrofes
Sufocando-as na garganta?
De que serve
o poema ao homem
Quando o poema está rouco
E o homem já não ouve?
Ou melhor
seria mesmo
Fechar a torneira
Esperar sentado
O milagre do homem?
Afinal
De que serve o poema ao homem
Quando lhe falta o milagre do peixe
E lhe sobra o destino em novena?
De que serve
o poema ao homem
Se lhe falta o consumo da força
E lhe sobra sonho ao delírio?
De que serve
o poema ao homem
Se dele não extrai o último saldo
Nem digita a senha no supermercado?
De que serve
o poema ao homem
Se não acessa a senha bancária
Nem reduz a parte do Imposto de Renda?
De que serve
(enfim) o poema ao homem
Se dele não se serve o homem?
Serve o poema ao homem
Quando muito quando nada
(Como o galo
de Cabral
quando tecendo a manhã
que anuncia a outro galo
que repassa a um outro
e a outro é repassado
para que outro o retome
e assim torne a repassar)
Para lembrar
a esse homem
Como se inventa a manhã
*foto dos arquivos de Luiz Sávio de Almeida.
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