A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

Somos Hoje Matemática (Branca Barão)

         


A soma de todas as experiências que tivemos até aqui. Cada filme que vimos, cada música que ouvimos, cada relacionamento que tivemos, cada sanduíche que comemos.
Divididos entre vida pessoal e profissional, entre ser pai ou amigo, mãe ou filha, entre cuidar de mim mesmo ou do outro. Entre comer e emagrecer, acordar cedo e malhar ou dormir mais um pouco e deixar a academia para lá.
Multiplicamos respostas para depois descobrirmos que as perguntas também se multiplicam.
Somos o que ainda temos para viver, subtraídos dos anos que já vivemos, bem ou não.
Nem sempre somos hoje o resultado da conta que fazíamos no passado. Somos roteiro turístico.
Os lugares a que fomos, os dias de sol, de chuva ou de frio. Somos as pessoas que encontramos pelo caminho e levamos de alguma forma com a gente.
Somos as idas e as voltas, as paradas em cada semáforo da vida, as ladeiras acima e as ladeiras abaixo, muitas vezes sem freio de mão.
Somos principalmente cada decisão de ir, decisão esta simples ou não.
Somos artistas de TV. Somos controle remoto e a decisão de mudar ou de permanecer.
Somos pura interpretação: dos fatos, das pessoas, das situações, da vida.
Quando rimos até chorar somos comédia. Quando choramos até dormir somos drama. Quando sentimos medo, somos suspense. Quando nos apaixonamos somos romance, comédia ou terror. Ou tudo isso junto.
Somos as lembranças e os desejos. Aqueles sonhos que alcançamos e aqueles que deixamos de sonhar. Somos fotos antigas e viagens em busca de fotos novas. Somos o que somos hoje enquanto desejamos ser alguém melhor no futuro.
Somos saudade e ansiedade, pressa de ir misturada com vontade de voltar. Um “era feliz e não sabia” que busca encontrar o que perdeu, só que “lá na frente”. Somos incongruências e inconstâncias.
Calma e pressa. Desejos, impulsos e vontade de controlá-los.
Seja lá o que formos, só podemos ser no presente. No passado, já era. No futuro, ainda não é!




*veja o vídeo também nesse link aqui:

BARÃO, Branca. 8 ou 80 - Seu melhor amigo e seu pior inimigo moram aí, dentro de Você! São Paulo: DVS Editora, 2012.

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