A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

CANA DE AÇUCAR (Emanuel Galvão)



A foice que decepa a cana
Deixa em mim as cicatrizes.
O meu patrão deitado em berço esplêndido
Quando pisa o chão com botina,
Pisa onde deitei raízes,
Onde forrei minha esteira,
Pra descansar meu corpo moído
Da minha dura rotina.
Que tal qual a cana ficou um bagaço.

Pro meu patrão o mel,
Mas, pra mim, melaço.
Meu trabalho
A vida do meu patrão adoçou
Enquanto a minha, amargou.

No escorrer dos dias
Pra esquecer da dor
E ter umas alegrias,
Eu bebi cachaça
E acabei em cana.
E fui amassado pelas autoridades,
Enquadrado na marginalidade
Em que já vivia.
Eu fui remoído
Já no meu bagaço
De cana.

Fim de semana,
Meu patrão descansa seu cansaço
Feito de pensar exaustivo.
Pensa logo existe e está vivo.
E no meu cansaço de viver sem reclamar,
Penso no meu existir
Lamentando o meu pensar.

Acho mesmo que essa vida
É um engenho
Em que uns são duros como aço,
Outros duros como cana,
Uns nasceram pra ser bacana,
Outros pra ser bagaço.

Mas seja qual for a peleja,
Essa vida tem beleza
E se necessário for
Redobrar o desempenho,
Castigar no meu labor
E fazer mais mel de engenho,
Cachaça e rapadura,
Pois vida assim tão dura
Necessita mais amor,
Mais carinho,
Mais cuidado,
Então pelo meu caminho
Mesmo que amassado
Quero dar mais sabor
A quem labuta ao meu lado.

(Emanuel Galvão - Livro Flor Atrevida - Quadrioffice/2007)

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