Poiesis (Glória Vara)

Imagem
 Poesia é quando a tarde tropeça no azul, e da queda nasce um verso  com cheiro de laranja e sombra de nuvem, que se escreve sozinho no guardanapo do vento. Poesia é quando o tempo esquece o relógio, e no miolo de um silêncio qualquer, brota uma palavra de asa curta, mas com coragem de voo. Poiesis é o instante em que a pedra decide florir, sem pressa, sem plano, só porque ouviu o sussurro da terra dizendo: “vai”. Copyright © 2026 by Glória Vara All rights reserved. Veja mais da autora aqui

DOS EXCLUIDOS (Emanuel Galvão)



Oh pátria minha! Mãe gentil
Teu filho pede esmola
Pede escola
Pede pão
Que voz horrível é essa?
Será vossa?
A voz que me diz...
Não.


Oh pátria minha! Mãe gentil... pariste.
Pra quê?
Teu filho que não foge à luta!
Porque não ouves meu brado retumbante?
Acaso sou eu filho da... Outra?

Oh pátria minha e tão distante dos meus sonhos
Mãe que me pariste.
Pra quê?
Para deixar-me só e triste?
Não é a ti que me oponho...

Teus donos, teus amantes.
Vindo de terras tão distantes
Deitar em teu berço esplêndido
Sugar com força tuas tetas
- palavras doces, frases belas, mutretas –

Oh Pátria minha, mãe! Comeste?
Pois que teu filho passa fome.
Mas, se ergue da justiça à clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Mesmo que entregue à própria sorte
É filho teu... e não da... Outra.

Oh Pátria amada, idolatrada.
Salve, salve...
Enquanto há tempo.
Porque a paz tá no futuro
E tua glória no passado
E o discurso dos que finge que te amam...
Ultrapassado.
Se o teu futuro espelha esta grandeza
Volta tua face à pobreza
Terra adorada
Não vez que mascarada é a face da nobreza
Que gasta tua riqueza com prostituta
Mandando para fora teu bem mais precioso
Deixando à margem os sonhos do teu povo.

Se o teu futuro espelha essa grandeza
E o teu presente é dúvida e incerteza
Olha pra quem trabalha e não foge à luta
A quem é filho teu e não da... Outra.
Embriagado eternamente em beco esplêndido
Ao som da barriga a reclamar
E o sono profundo...
Da inércia.
Fulguras oh mãe gentil
Porão da América
Iludindo sem piedade a todo mundo.

O meu amor por ti, me faz seguir adiante.
E é por amor que o coração diz: cante
É por saber-me vencedor, mesmo vencido.
Que ergo da injustiça com voz forte
Falando pelos meus pares excluídos
Um brado que ecoe retumbante.

(Emanuel Galvão - Livro Flor Atrevida - Quadrioffice/2007)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um Amor (Emanuel Galvão)

Poiesis (Glória Vara)

O Beijo (Elsa Moreno)

Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera! - Miryan Lucy de Rezende

Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

Eu não gosto de você, Papai Noel!... (Aldemar Paiva)

MEUS ESTIMADOS AMIGOS - DIA DO POETA (Emanuel Galvão)

MEUS SECRETOS AMIGOS (Paulo Sant'Ana)

TÊNIS X FRESCOBOL (Rubem Alves)