Poiesis (Glória Vara)

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 Poesia é quando a tarde tropeça no azul, e da queda nasce um verso  com cheiro de laranja e sombra de nuvem, que se escreve sozinho no guardanapo do vento. Poesia é quando o tempo esquece o relógio, e no miolo de um silêncio qualquer, brota uma palavra de asa curta, mas com coragem de voo. Poiesis é o instante em que a pedra decide florir, sem pressa, sem plano, só porque ouviu o sussurro da terra dizendo: “vai”. Copyright © 2026 by Glória Vara All rights reserved. Veja mais da autora aqui

Eu não gosto de você, Papai Noel!... (Aldemar Paiva)



Eu não gosto de você, Papai Noel! 
Também não gosto desse seu papel
de vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
soubessem do seu ódio à humildade,
jogavam pedra nessa fantasia.

Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa, me tornei rapaz,
sem esquecer, no entanto, o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente
e a noite inteira eu esperei, contente.
Chegou o sol e você não chegou.

Dias depois, meu pobre pai, cansado,
trouxe um trenzinho feio, empoeirado,
que me entregou com certa excitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
“É pra você, Papai Noel mandou”.
E se esquivou, contendo a emoção.

Alegre e inocente nesse caso,
eu pensei que meu bilhete com atraso,
chegara às suas mãos, no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda,
ele partiu dando muitas voltas,
meu pai me sorriu e me abraçou pela última vez.

O resto eu só pude compreender quando cresci
e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a seco:
“Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro, na cidade”.

Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar
e como quem não quer abandonar
um mimo que nos deu, quem nos quer bem,
disse medroso: “O senhor vai trocar ele?
Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele.
E por favor, não vá levar meu trem”.

Meu pai calou-se e pelo rosto veio
descendo um pranto que, eu ainda creio,
tanto e tão santo, só Jesus chorou!
Bateu a porta com muito ruído,
mamãe gritou ele não deu ouvidos,
saiu correndo e nunca mais voltou.

Você, Papai Noel, me transformou num homem
que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre
para a riqueza do menino pobre
que sonha o ano inteiro com o Natal.

Meu pobre pai doente, mal vestido,
para não me ver assim desiludido,
comprou por qualquer preço uma ilusão,
e num gesto nobre, humano e decisivo,
foi longe pra trazer-me um lenitivo,
roubando o trem do filho do patrão.

Pensei que viajara,
no entanto depois de grande,
minha mãe, em prantos,
contou-me que fôra preso
e como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia,
entrou na cela e o libertou pro céu.


Comentários

  1. É de arrancar prantos, não tão puro e também nem santo como os de Jesus e o pobre pai chorou...

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  2. Poema muito chocante, mas de brutal realidade!

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  3. Triste...porém lindíssimo e com muita realidade.

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  4. Foi por estes motivos que Charles Darwin em 1859 inumou "deus" com a publicação do Livro "A Origem das Espécies". A vida é uma competição desde a fecundação, os tempos passam, eclode a necessidade da metamorfose intelectual e social, para um dia tudo se acabar, nos transportando ao propedêutico do infinito, ou seja, na transfomação do corpo ora depositado na natureza.

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  5. É a realidade de muitos pais e crianças.
    Ajude uma criança de rua. Existem muitas cartinhas endereçadas ao Papai Noel, só retirar nos correios. Coloque nos lábios de uma criança um sorriso de alegria e esperança.
    Feliz Natal

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  6. Me emocionei.lindo vou guardar para todo o sempre! Vc foi gigante aldemar paiva

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  7. Simplesmente, uma pecha do Capitalismo selvagem.

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    1. Sim, já diziam os Garotos Podres na música sobre Papai Noel.. que agora, depois de 40 anos, voltou a incomodar...

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