Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

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 Apesar dos imprevistos que o cotidiano espalha pelo caminho como pedras súbitas, capazes de nos deter os passos e suspender o fôlego, eu permaneço. Com a mesma coragem indomável, com a ousadia que me acende por dentro, semeio utopias no escuro da terra e confio — há sempre um amanhecer à espera de quem insiste. Escolho olhar o mundo com pupilas de poesia: lentes invisíveis que transfiguram o peso em voo e o caos em constelação. É ela quem me sopra os segredos da magia e me ensina a atravessar abismos sem me perder de mim. Sobretudo nos dias em que o coração arde em silêncio, grita para dentro e nenhuma mão alcança, faço do próprio peito um farol aceso — e sigo, porque a esperança aprende comigo a nunca se apagar. Copyright © 2026 by Adriano Roberto Alves da Silva All rights reserved.

Os Ombros Suportam o Mundo ( Carlos Drummond de Andrade)

*

            Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
            Tempo de absoluta depuração
            Tempo em que não se diz mais: meu amor.
            Porque o amor resultou inútil.
            E os olhos não choram.
            E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
            E o coração está seco.

            Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
            Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
            mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
            És todo certeza, já não sabes sofrer.
            E nada esperas de teus amigos.

            Pouco importa venha a velhice, que é a velhice ?
            Teus ombros suportam o mundo
            e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
            As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
            provam apenas que a vida prossegue
            e nem todos se libertaram ainda.
            Alguns, achando bárbaro o espetáculo
            prefeririam (os delicados) morrer.
            Chegou um tempo em que não adianta morrer.
            Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
            A vida apenas, sem mistificação.

*foto da obra de Vik Muniz (Atlas)

                                                


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