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Mostrando postagens de Abril, 2014

O Apanhador de Desperdício (Manoel de Barros)

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Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.

Amor Cachoeira (Paulino Vergetti Neto)

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Não há a distância que vejo
entre os teus olhos e os meus
que se vêem sem se verem.
Há dois imensos corações que ouvem
um grande amor nascer

O poeta diante de Deus (Jorge de Lima)

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Senhor Jesus, o século está pobre.
Onde é que vou buscar poesia?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro. Senhor Jesus, o século está doente, o século está rico, o século está gordo. Devo despir-me do que é belo, devo despir-me da poesia, devo despir-me do manto mais puro que o tempo me deu, que a vida me dá. Quero leveza no vosso caminho. Até o que é belo me pesa nos ombros, até a poesia acima do mundo, acima do tempo, acima da vida, me esmaga na terra, me prende nas coisas. Eu quero uma voz mais forte que o poema, mais forte que o inferno, mais dura que a morte: eu quero uma força mais perto de Vós. Eu quero despir-me da voz e dos olhos, dos outros sentidos, das outras prisões, não posso Senhor : o tempo está doente. Os gritos da terra, dos homens sofrendo me prendem, me puxam ¬ me daí Vossa mão.



JORGE DE LIMA (1895 — 1953)

Jorge de Lima nasceu em União dos Palmares (AL), em 23 de abril de 1893. Filho de José Mate…

Fuá na Casa de Cabral (Sérgio Roberto Veloso de Oliveira - Siba / Helder Vasconcelos)

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Naquele Brasil antigo
Perdido no desengano
Seu Cabral chegou nadando
E não preocupou com nada
Deu ordem à rapazeada
Mandou barrer o terreiro:
"Me chame o pai do chiqueiro
que hoje eu quero forró,
Toré, samba, catimbó
Que eu já virei brasileiro"

Amor Feinho (Adélia Prado)

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Amor feinho
Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olho um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.

Feliz Páscoa (Frei Beto)

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Feliz Páscoa aos que desdobram a subjetividade, rompendo a casca do ego para deixar renascer a mulher ou o homem novo, e a quem se nutre de TV sem enxergar as maravilhas encerradas no próprio peito.
Feliz Páscoa aos artífices da paz que, entre conflitos, exalam suavidade, não achibatam com a língua a fama alheia, nem naufragam nas próprias feridas. E aos emotivos que deixam escapar das mãos as rédeas da paciência e nunca abandonam as esporas da ansiedade.

Chegança (Antônio Nóbrega / Wilson Freire)

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Sou pataxó,
Sou xavante e cariri,
Ianonami, sou tupi
Guarani, sou carajá.
Sou pancaruru,
Carijó, tupinajé,
Potiguar, sou caeté,
Ful-ni-o, tupinambá.

É Preciso Não Esquecer Nada (Cecília Meireles)

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É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

Tempo Verbal (Thiago kuerques)

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Eu só quero um presente
E você com esse tal futuro do pretérito.

Bem no Fundo (Paulo Leminski)

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No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

Se Quiser Plantar Saudade (Antônio Pereira)

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Se quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Onde o sol seja bem quente
Pois se plantar no molhado 
Quando crescer mata gente

Para que serve uma relação...? (Drauzio Varella)

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Definição mais simples e exata sobre o sentido de mantermos uma relação?
"Uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil".
Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom, e merece ser desenvolvido.

Súplica (Miguel Torga)

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Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Na Asa do Vento (Luiz Vieira / João do Vale)

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Deu meia noite, a lua abre um claro
Eu assubo nos aro, vou brincar no vento leste
A aranha tece puxando o fio da teia
A ciência da abeia, da aranha e a minha
Muita gente desconhece

Somos Hoje Matemática (Branca Barão)

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A soma de todas as experiências que tivemos até aqui. Cada filme que vimos, cada música que ouvimos, cada relacionamento que tivemos, cada sanduíche que comemos. Divididos entre vida pessoal e profissional, entre ser pai ou amigo, mãe ou filha, entre cuidar de mim mesmo ou do outro. Entre comer e emagrecer, acordar cedo e malhar ou dormir mais um pouco e deixar a academia para lá. Multiplicamos respostas para depois descobrirmos que as perguntas também se multiplicam. Somos o que ainda temos para viver, subtraídos dos anos que já vivemos, bem ou não.

O Anjo Mais Velho ( Fernando Anitelli)

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"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"
Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minha alma daquilo que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Poema em Linha Reta (Álvaro de Campos - heterônimo de Fernando Pessoa )

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Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala …

'Viajante perdido pelo mundo...' (Zealberto de Paulo Jacintho)

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Viajante perdido pelo mundo
carregando nas malas recheadas
os fracassos, as mágoas recalcadas,
que fizeram de mim um vagabundo,
um molambo qualquer, um moribundo
que em vão hoje busca encontrar
um alguém que lhe possa dedicar
pelo menos um riso de criança,
‘sou apenas um resto de esperança
que o tempo esqueceu de carregar’.

Não Minto (Sidney Wanderley)

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‘É repousante achar-se entre mulheres bonitas. Por que sempre mentir sobre tais coisas?’ - segredou-me em certa página Ezra Pound. Entanto eu, quando entre elas - desengonçada jiboia, pé e perna Que no plano se projetam Para a topada e a queda – Assusto-as, ou assusto-me demasiado.

O Tempo (Olavo Bilac)

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Sou o Tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

Bonito (Elizete Sartori)

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Bonito é ver sua delicadeza beijar minh’alma, se em mim anoitece.

Arrastada (Patrícia Polayne)

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Ficou de cara mas foi só por pouco tempo
Que o mau grado desatento despertou sua atenção.
Será o benedito que o meu argumento
Sem metáforas só movimento caiba na canção.

Noite Severina (Lula Queiroga / Pedro Luís)

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Corre calma, severina noite
De leve no lençol que te tateia a pele fina
Pedras sonhando pó na mina
Pedras sonhando com britadeiras
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Cada ser tem sonhos à sua maneira