A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

ENCHENTES E VAZANTES (Emanuel Galvão)



Meu coração é uma rocha em frente ao mar
Que rebenta em mim, e me faz bem e me faz mal
Acentuando assim, essa sede de amar
Entrego-me pois, as espumas da paixão
Esse conjunto de pequenas bolhas
Que como surgem desaparecerão
Porque essas ondas transformam a rocha em sal
Que são lágrimas de rebentação.

Meu corpo é a areia dessa praia apaixonada
À espera das enchentes da maré
Para sentir teu peso novamente
Tua ousadia, tua fúria desordenada
O som dos uis, o som dos ais
O vai e vem dos teus movimentos sensuais
Lembrados com saudades, porque já me são vazantes
E vós que navegais a esmo nesses versos
Compreendereis melhor se fordes amantes
As enchentes e vazantes, que unem e separam
Os casais.

Mas qual o coração de pedra que é forte
Contra o mar e seu arpoador?
Pois a paixão é canto de sereia
Meu coração é de pedra, meu corpo areia...
Se acaso sois o mar
Peço-vos por favor, deixa que eu suporte
O peso, o sonho, a sorte
De ser inundado por tão lúbrico amor.

opyright © 2007 by Emanuel Galvão
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