A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

Imagem
  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

UMA COISA É FAZER VERSO, OUTRA É FAZER POESIA (Affonso Romano de Sant'Anna)



“Uma coisa é fazer verso, outra é fazer poesia. Para fazer versos basta uma certa técnica e uma certa prática, e habitua-se a rimar e metrificar a fala. Poesia é outra coisa. Em grego o termo poeta é sinônimo de inventor e nas comunidades primitivas o vate era o indivíduo possesso que proferia a verdade. Poeta, portanto, como eu e muita gente entende, é o indivíduo que, utilizando-se da linguagem, produz um pensamento que revela e seduz.
Revela, no sentido que fez emergir algo que estava oculto na aparência prosaica  dos fatos cotidianos. Seduz, no sentido que o jogo encantatório da linguagem tem um objetivo de conduzir o outro a uma epifania ou revelação.”
                                                  Afonso Romano de Sant’Anna
                                   *Psicologia Atual – Ano V nº 28 out. 1982     

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Tempo (Roberto Pompeu de Toledo)

MEUS SECRETOS AMIGOS (Paulo Sant'Ana)

Da Calma e do Silêncio (Conceição Evaristo)

Os Votos (Sérgio Jockymann)

A FLOR E A FONTE (Vicente de Carvalho)

Eu Te Desejo (Flávia Wenceslau)

Gritaram-me Negra (Victoria Santa Cruz)