DOS EXCLUIDOS (Emanuel Galvão)



Oh pátria minha! Mãe gentil
Teu filho pede esmola
Pede escola
Pede pão
Que voz horrível é essa?
Será vossa?
A voz que me diz...
Não.


Oh pátria minha! Mãe gentil... pariste.
Pra quê?
Teu filho que não foge à luta!
Porque não ouves meu brado retumbante?
Acaso sou eu filho da... Outra?

Oh pátria minha e tão distante dos meus sonhos
Mãe que me pariste.
Pra quê?
Para deixar-me só e triste?
Não é a ti que me oponho...

Teus donos, teus amantes.
Vindo de terras tão distantes
Deitar em teu berço esplêndido
Sugar com força tuas tetas
- palavras doces, frases belas, mutretas –

Oh Pátria minha, mãe! Comeste?
Pois que teu filho passa fome.
Mas, se ergue da justiça à clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Mesmo que entregue à própria sorte
É filho teu... e não da... Outra.

Oh Pátria amada, idolatrada.
Salve, salve...
Enquanto há tempo.
Porque a paz tá no futuro
E tua glória no passado
E o discurso dos que finge que te amam...
Ultrapassado.
Se o teu futuro espelha esta grandeza
Volta tua face à pobreza
Terra adorada
Não vez que mascarada é a face da nobreza
Que gasta tua riqueza com prostituta
Mandando para fora teu bem mais precioso
Deixando à margem os sonhos do teu povo.

Se o teu futuro espelha essa grandeza
E o teu presente é dúvida e incerteza
Olha pra quem trabalha e não foge à luta
A quem é filho teu e não da... Outra.
Embriagado eternamente em beco esplêndido
Ao som da barriga a reclamar
E o sono profundo...
Da inércia.
Fulguras oh mãe gentil
Porão da América
Iludindo sem piedade a todo mundo.

O meu amor por ti, me faz seguir adiante.
E é por amor que o coração diz: cante
É por saber-me vencedor, mesmo vencido.
Que ergo da injustiça com voz forte
Falando pelos meus pares excluídos
Um brado que ecoe retumbante.

(Emanuel Galvão - Livro Flor Atrevida - Quadrioffice/2007)

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