Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

Imagem
 Apesar dos imprevistos que o cotidiano espalha pelo caminho como pedras súbitas, capazes de nos deter os passos e suspender o fôlego, eu permaneço. Com a mesma coragem indomável, com a ousadia que me acende por dentro, semeio utopias no escuro da terra e confio — há sempre um amanhecer à espera de quem insiste. Escolho olhar o mundo com pupilas de poesia: lentes invisíveis que transfiguram o peso em voo e o caos em constelação. É ela quem me sopra os segredos da magia e me ensina a atravessar abismos sem me perder de mim. Sobretudo nos dias em que o coração arde em silêncio, grita para dentro e nenhuma mão alcança, faço do próprio peito um farol aceso — e sigo, porque a esperança aprende comigo a nunca se apagar. Copyright © 2026 by Adriano Roberto Alves da Silva All rights reserved.

O Homem Vestido de Sol (Fabrício Carpinejar)



Meu rei, o sertão nunca virou mar,
mas palavras dos seus livros feitos para mirar
longe e infinito, como canções de guerrear.

E a palavra virou brasa e a brasa virou brasão
de uma carta que só será aberta agora com sua morte.


Meu rei, que fez do nordeste seu norte,
o reino da pedra abre-se para sua passagem,
sem mais a lógica que lhe impeça sua imortalidade.
Finalmente está vestido de metáforas, de sol,
das cores extravagantes do crepúsculo e circo.

Meu rei, você galopava entre o indizível
e o inominável, entre a esperança e o inesperado.
Onde ia tampouco sabia, levava os sonhos na garupa
enquanto eles cochichavam mitos e miragens.

A maior caça do nordestino é a água,
não é o bicho ou a treva.
A fome nasceu da sede, a sede criou a águia.

Meu rei, você falava rápido como quem cantava,
cantava como quem falava. Eu ouvia onças pintadas
em sua voz, sombras velozes de aves no solo,
e me envolvia com a rouquidão do seu riso.

O riso não foi à toa, o riso só vem com a idade,
é uma conquista do tempo, uma experiência da maturidade.
O riso é um ator frustrado que não decorou seu texto
e improvisou, encantado, o que via no avesso, na veia do verso, no beijo.

Meu rei, meu romanceiro gitano, que atravessou,
com o cordel da garganta, o frio da noite do velho
sertão do Cariri, você não seguia planos,
não se entregava ao sofrimento dos danos:
quando queria escrever, desenhava
e quando queria desenhar, escrevia.

Meu rei, meu Cervantes das paredes das casas,
a calçada tinha o tamanho de seu corpo,
podia passar um de cada vez, uma multidão dentro de si.

Meu rei, meu coração de lona, meu coração balão,
baile e pulso, do lado do real e contra o oficial,
a favor do sim no mais íntimo não,
você levou a sério o palhaço, debochou da corte.
Pobre com coragem é rico, rico com medo é pobre.

No fundo, entendia que não há maior ambição do que estar vivo.
Vingou a morte matada do pai com sua velhice morrida.

Meu rei, você não temia se sujar de rua, de gente,
pois não existia lembrança inocente.
Nunca fugia de ser escrito pela poeira vermelha,
expunha-se com o mesmo ímpeto às verdades e asneiras.

Seu terno era uma página em branco,
suas sobrancelhas eram páginas em branco,
seus sapatos eram páginas em branco.

Meu rei, você amava redigir no fogo.
O fogo também branco, puro e ávido.
O fogo é a única luz que o homem inventou.
Seu nome queimará para sempre.
Que assim seja. Amém.


*veja mais do autor aqui:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Beijo (Elsa Moreno)

A Reunião dos Bichos (Antônio Francisco)

'ATÉ QUE A MORTE...' (Rubem Alves)

Eu não gosto de você, Papai Noel!... (Aldemar Paiva)

Eu Te Desejo (Flávia Wenceslau)

As Máscaras (Menotti del Picchia)

MEUS SECRETOS AMIGOS (Paulo Sant'Ana)

A Bola (Luís Fernando Veríssimo)