Poiesis (Glória Vara)

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 Poesia é quando a tarde tropeça no azul, e da queda nasce um verso  com cheiro de laranja e sombra de nuvem, que se escreve sozinho no guardanapo do vento. Poesia é quando o tempo esquece o relógio, e no miolo de um silêncio qualquer, brota uma palavra de asa curta, mas com coragem de voo. Poiesis é o instante em que a pedra decide florir, sem pressa, sem plano, só porque ouviu o sussurro da terra dizendo: “vai”. Copyright © 2026 by Glória Vara All rights reserved. Veja mais da autora aqui

Musa (Mírian Monte)




É o decote da tua blusa
Que não mostra, insinua;
Que desperta o desejo
De ter ver inteira nua.
São as covas dos teus risos,
Que brotam em lábios indecisos,
E se entreabrem levemente,
Ora prometem beijos quentes
E, de vez em quando, orgulhos ferem,
Com as palavras que proferem,
Cordiais, indiferentes.
É o olhar inquietante,
Que as almas dilacera,
Que acorda a quieta fera,
Por mesmice adormecida
E que a torna decidida
A abrir suas cortinas,
A lançar-se em aventura,
A rasgar o tal decote,
Que não mostra: insinua;
Que revela as fraquezas,
Da moralidade imposta;
Que coloca à toda prova,
Os costumes, a cultura.
É caminho feminino,
De curvas acentuadas,
Muito pouco advertidas,
Numa pele tatuada.
É a tez despreocupada,
Mesmo quando te acusam,
Mesmo quando te profanam,
Mesmo quando te torturam.
É a dúbia identidade:
Ora fada, ora bruxa,
Ora ninfa, ora musa,
Que o teu andar oculta;
É o decote da tua blusa,
Que não mostra, insinua,
Que desperta o desejo
De ter ver inteira nua.

Copyright © 2017 by Mírian Monte
All rights reserved.

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