Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

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 Apesar dos imprevistos que o cotidiano espalha pelo caminho como pedras súbitas, capazes de nos deter os passos e suspender o fôlego, eu permaneço. Com a mesma coragem indomável, com a ousadia que me acende por dentro, semeio utopias no escuro da terra e confio — há sempre um amanhecer à espera de quem insiste. Escolho olhar o mundo com pupilas de poesia: lentes invisíveis que transfiguram o peso em voo e o caos em constelação. É ela quem me sopra os segredos da magia e me ensina a atravessar abismos sem me perder de mim. Sobretudo nos dias em que o coração arde em silêncio, grita para dentro e nenhuma mão alcança, faço do próprio peito um farol aceso — e sigo, porque a esperança aprende comigo a nunca se apagar. Copyright © 2026 by Adriano Roberto Alves da Silva All rights reserved.

O Que é Morrer de Sede em Frente ao Mar? (Fernando Tenório)


Carlos saiu para passear. Embora avesso às saídas no fim de tarde de sábado resolveu, por obra do destino ou acaso, ver o mar. Experimentou a brisa no rosto como há muito não fazia. Olhou para o azul do céu e lembrou-se dos olhos de um passado que ainda mexe. Mexe mais que ressaca de mar revolto, tem poder maior que o da água na arrebentação, a qual pode,apesar da sua fluidez, levar tudo consigo.


Amanda já traz consigo sua chaga estampada no próprio nome. Ela ama! Das mais variadas maneiras ama. Dos amores que viveu carrega os desamores e guarda-o como prêmios obtidos e que na sua ilusão blindam-na dos novos contratempos do coração e, por acontecerem aos montes, garantem que sua dívida de sofrer por amor já foi paga.

Amanda também resolveu ir à praia. Foi ver o pôr do sol, e sorrir ao ver os sorrisos tolos das pessoas dentro do mar. Carlos fitava o mar e continuava seu caminhar, já Amanda olhava paralisada o sol morrer, quando a vida resolveu dar a eles um encontrão de presente. Olharam-se, não se reconheceram, o olhar dele permanecia preso a ela sabe-se lá o motivo. Por não saber, ele pediu desculpas. Ela aceitou, destinando-se rapidamente para uma região mais próxima ao mar.

Carlos e Amanda não se conhecem, apesar de morar na mesma cidade litorânea, no mesmo bairro. Desconhecem que ambos são fã dos Beatles, do Saramago e do Milton Nascimento. Carlos não sabe que Amanda tem a péssima mania de não trancar a porta antes de dormir. Amanda nunca saberá que Carlos dorme todas as noites no sofá da sala, talvez por sentir-se um desalojado dentro do seu próprio lar, do seu próprio eu. Não sabem que ambos andam sozinhos e querendo alguém para dividir a solidão. Não sabem, nem eu sei, como seria caso se conhecessem.

Amanda tinha um mar de amor dentro de si. Carlos tinha sede, somente sede, de algum amor que chegasse. Amanda também tinha sede. Sede de transformar sua chaga, de ser aquela que ama, em qualquer outro rótulo, desde que fosse amada. E Carlos trazia dentro da sua solidão um mar de amor para despejar em alguém.

Não se reconheceram, seguiram caminhos diferentes. Morreram de sede em frente ao mar.



Comentários

  1. Seu texto é simplesmente lindo! Super me identifiquei.
    Parabéns!! Que nos presenteie mais vezes.

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    Respostas
    1. O Fernando Tenório é um excelente cronista, esse médico alagoano tem conquistado a muitos com seus belos e bem escritos textos.
      Obrigado Morena Flor por sua visita em nosso blog.
      Grande abraço!

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