As Máscaras (Menotti del Picchia)

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  O teu beijo é tão doce, Arlequim... O teu sonho é tão manso, Pierrô... Pudesse eu repartir-me encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo... e a Pierrô, minha alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrô tristonho, pois um dá-me prazer, o outro dá-me o sonho! Nessa duplicidade o amor todo se encerra: Um me fala do céu...outro fala da terra! Eu amo, porque amar é variar e , em verdade, toda razão do amor está na variedade... Penso que morreria o desejo da gente se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente. Porque a história do amor só pode se escrever assim: Um sonho de Pierrô E um beijo de Arlequim! ---------------------------------------------------------------- Pierrot, Colombina e Arlequim são personagens da Commedia dell'Arte , um teatro popular italiano, que formam um triângulo amoroso clássico. Pierrot é o serviçal triste e apaixonado por Colombina, mas que tem seu amor não correspondido; Arlequim é o malandro e esperto que conquista a Colombina, ...

A luta amorosa com as palavras (Mário Quintana)




Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me
aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda
confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas,
meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.
Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos,
mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade
demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que
me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia
descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro –
o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu.

Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário,
sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é
insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem
que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam
os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros ?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro
elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras.
Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante
5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto
de Oliveira, de Erico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam), o que é a luta
amorosa com as palavras.



*(texto escrito pelo poeta para a revista “Isto É” de 14/11/1984)

*Veja outros textos muito bons em:Mágia da Poesia





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