Os Ombros Suportam o Mundo ( Carlos Drummond de Andrade)

*

            Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
            Tempo de absoluta depuração
            Tempo em que não se diz mais: meu amor.
            Porque o amor resultou inútil.
            E os olhos não choram.
            E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
            E o coração está seco.

            Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
            Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
            mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
            És todo certeza, já não sabes sofrer.
            E nada esperas de teus amigos.

            Pouco importa venha a velhice, que é a velhice ?
            Teus ombros suportam o mundo
            e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
            As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
            provam apenas que a vida prossegue
            e nem todos se libertaram ainda.
            Alguns, achando bárbaro o espetáculo
            prefeririam (os delicados) morrer.
            Chegou um tempo em que não adianta morrer.
            Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
            A vida apenas, sem mistificação.

*foto da obra de Vik Muniz (Atlas)

                                                


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