Mulher Sem Limites (Romance de Flor) (Emanuel Galvão)

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Você já figura no meu coraçãoDescalça e sem roupa como num salãoTão bela e tão doce, mulher sem limitesQuem dera que fosse... E assim exististesDançando ao ritmo de minha pulsação.Não cabes em rótulos, por que caberias?Palavras ou versos, talvez te seduza...Então, só então, tu abras tua blusaE ardente, insana, tu permitiriasVolúpias intensas de terna paixão.Porque minha pele não te resistiriaEs bela não nego, sou tão negligenteForas apenas bela, mas és inteligenteNão encontro virtude que assim a alcanceMelhor te amar, assim de relanceSem ilusões, sem juras de amorRomance de flor, sem dor sem espinhoCaindo as pétalas, restará: odor e carinhoAssim em meu sonho, te possuo inteiraTe amando pleno, não de qualquer maneira.
Copyright © 2020 by Emanuel Galvão
All rights reserved.

*Foto by: Ana Cruz

ESCUTATÓRIA (Rubem Alves)


        

                                                                           Rubem Alves

  Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado
 curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer
 aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho
 que ninguém vai se matricular.

          Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é
bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também
 não ter filosofia nenhuma".
          Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como
são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o
que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a
dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar
 um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente
tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada
consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem
a dizer, que é muito melhor.
         Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e
 sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais
bonitos...


          Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados
Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência
com os índios.
Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.
(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do
piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio.
 Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à
 espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto.
Todos ouvem.
           Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria
 um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos,
pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso
tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são
 duas as possibilidades.
Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o
que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria
falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não
 tivesse falado".
Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade
 eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem
preciso pensar sobre o que você falou".
           Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é
pior que uma bofetada.
           O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando
cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.
           Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro.
 Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a
gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
           Eu comecei a ouvir.
           Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo
que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há
palavras.
           A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral
 submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica
fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do
falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia,
que de tão linda nos faz chorar.
           Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí
 a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
           Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se
 juntam num contraponto.


*veja mais de Rubem Alves aqui: http://www.rubemalves.com.br/

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