Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

Imagem
 Apesar dos imprevistos que o cotidiano espalha pelo caminho como pedras súbitas, capazes de nos deter os passos e suspender o fôlego, eu permaneço. Com a mesma coragem indomável, com a ousadia que me acende por dentro, semeio utopias no escuro da terra e confio — há sempre um amanhecer à espera de quem insiste. Escolho olhar o mundo com pupilas de poesia: lentes invisíveis que transfiguram o peso em voo e o caos em constelação. É ela quem me sopra os segredos da magia e me ensina a atravessar abismos sem me perder de mim. Sobretudo nos dias em que o coração arde em silêncio, grita para dentro e nenhuma mão alcança, faço do próprio peito um farol aceso — e sigo, porque a esperança aprende comigo a nunca se apagar. Copyright © 2026 by Adriano Roberto Alves da Silva All rights reserved.

Minha Rua Não Tem Palmeiras (Jarbas Siebiger)



Minha rua é socialista. Quando chove, há barro para todos. Lá, a democracia é totalitária. Quiseram calçá-la, base de rateio. Uns poucos declinaram, continuou crua. Ideologicamente, prefiro. Seria brindar incapacidades.

Na minha rua, economia imita globalização e autossustentabilidade. Tem Paulinho, que apara mato, colore grade, maquia muro. Iara pergunta hora e cronometra salgado quente aos aniversários. Caia fundo de churrasqueira, Rogério improvisará lata. Puxadinho é com o Gérson: cerveja servida, barateia mão-de-obra, afina acabamento. Coelho limpa carburador, põe ponto ao motor. Depois, divide birita e costela. Compradas com os caraminguás do socorro. A mulher lava pra vizinha defronte. Sem pudor, nem preconceito. Necessidade. Nem a coleta do lixo é discriminada. Mesmo assim, garrafas vão separadas. Retornam com detergente. Feito por lá. Procedência se conhece, nota faltará. Política, a rua dispensa: Estado não cumpre, não interfira.

Rua minha é solidária. Kombi de Paulo faz ambulância e mula. Viajar é deixar chave-da-casa com vizinho. Pátio assume estacionamento alternativo: guarda carro de garagem reformada, de genro fugindo do sogro e do filho que empreendeu picaretear. A Titica é de todos e de ninguém. Só ameaça, não crava. Acostumou-se ao relento, renega abrigo. Vigia o pedaço e acua jaguara que se atreva. A rua lhe dá sustento.

Quem não mais comparece é chimarrão-beira-de-calçada do Valmir. Morreu, povo da rua enterrou. Não me animo substituí-lo. Faço, então, só distribuir limões-bergamota. Que se dão às pencas. Declaro parte nesse quinhão que nem é posse.

Minha rua não tem palmeiras. Mas, na hora do Angelus, piam aves-marias.


*Click e Veja mais do autor na REVISTA Itinerário Imprevisto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu não gosto de você, Papai Noel!... (Aldemar Paiva)

O Beijo (Elsa Moreno)

ARTE DE AMAR (Manuel Bandeira)

Olhando o Mundo Com Pupilas de Poesia.

Poema 50 (Arriete Vilela)

Essa Negra Fulô (Jorge de Lima)