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Mostrando postagens de Setembro, 2018

Mulher Sem Limites (Romance de Flor) (Emanuel Galvão)

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Você já figura no meu coraçãoDescalça e sem roupa como num salãoTão bela e tão doce, mulher sem limitesQuem dera que fosse... E assim exististesDançando ao ritmo de minha pulsação.Não cabes em rótulos, por que caberias?Palavras ou versos, talvez te seduza...Então, só então, tu abras tua blusaE ardente, insana, tu permitiriasVolúpias intensas de terna paixão.Porque minha pele não te resistiriaEs bela não nego, sou tão negligenteForas apenas bela, mas és inteligenteNão encontro virtude que assim a alcanceMelhor te amar, assim de relanceSem ilusões, sem juras de amorRomance de flor, sem dor sem espinhoCaindo as pétalas, restará: odor e carinhoAssim em meu sonho, te possuo inteiraTe amando pleno, não de qualquer maneira.
Copyright © 2020 by Emanuel Galvão
All rights reserved.

*Foto by: Ana Cruz

Com Licença Poética (Adélia Prado)

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Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Prado , Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 11.

"Você é Feminista!" (Ruth Manus)

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Semana passada fui dar aula sobre assédio sexual num curso de pós graduação em São Paulo. Cheguei na sala, composta predominantemente por advogados, e perguntei “Quem aqui se considera feminista?”. Silêncio. Uma moça levanta timidamente o braço. Dois ou três caras fazem comentários baixinho e riem.

Disse “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês”. Continuei.

“Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a IGUALDADE politica, social e econômica de ambos os sexos.

Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.”

Esperei um pouquinho e mudei a pergunta “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?”. Ninguém levantou a mão.

Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor: dize…

De Estimação (Emanuel Galvão)

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O livro vai a onde
traçam seu itinerário.
Preso em estantes,
Todavia, livro é libertário.
Livro é libertação!
A capa e a contracapa
Que segura o conteúdo
Não o faz para sempre,
Abre-se prontamente,
Com auxílio curioso das mãos.
Contudo,
Meu caro,
Leitor é bicho raro!
Quase em extinção.
Eu mesmo,
Cuido dos meus,
Ando feito Promēthéus:
Trago fogo, trago flores,
Reflexão, excitação, amores,
Vida, sonho, paixão.

Tudo para meus leitores.
São meus, e de estimação.
Junto a eles é meu lugar.
Amar tem seus sinônimos...
Um deles é cuidar.
Copyright © 2018 by Emanuel Galvão
All rights reserved.





A formalística (Adélia Prado)

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O poeta cerebral
tomou café sem
açúcar
e foi pro gabinete
concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada
das palavras,
imagem que elegeu
porque ama a
dificuldade,
o efeito respeitoso
que produz
seu trato com o
dicionário.

Esta Gente (Sophia de Mello Breyner)

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Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

A Margem Esquerda do Rio (Emanuel Galvão)

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Em memória de Francisco Sales
Uma cidade edificada de história e conhecimento Alicerçada na pedra da Sabedoria Um monumento antigo e sempre novo Um ícone do povo Muito embora forjado na academia.

Quem viveu para preservar a memória Mesmo que da vida destituído Jamais será esquecido! Pois soube edificar em rocha Sua história, A do seu povo... Desse antigo casario A margem esquerda do rio.
Habita agora na Casa do Penedo Uma saudade... Cada papel amarelado Cada peça do acervo Na margem daquele lado Perde o Seio, o eixo o nervo...
Uma poeira, Uma digital, Um vento que entra de qualquer maneira E percorre todo erêncio - Ele aparente surdo à voz de todos - Fala agora seus silêncios.

19.09.2018

Copyright © 2018 by Emanuel Galvão
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Conheça mais de Francisco Alberto Sales e a Fundação Casa do Penedo

Francisco Alberto Sales, fundador da Casa do Penedo, faleceu aos 78 anos em Brasília — Foto: Roberto Miranda/Arquivo pessoal *19.11.1939 +18.09.2018




Seu Rei Mandou Dizer... (Emanuel Galvão)

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"...mas das palavras não sou eu que faço uso. São elas, as geniosas, as venais que se utilizam de mim e se divertem.."
Bruna Lombardi


Pensei certa vez:
Que ofício tem o poeta,
Senão brincar com as palavras?
Não percebia eu
Que elas - as palavras -
É que brincavam comigo.

Percebi isto quando,
Brincar não estava disposto
E as palavras brincavam de se esconder,
De escorregar, de pega-pega,
De pular carniça;
- cada brincadeira de mau gosto! -
De boca de forno,
Só pra me fazer ir e vir.
Atrás de letras, sílabas, pontos, vírgulas
Que seu rei mandou dizer...
E como não bastasse dizer!
Escrever, escrever, escrever...

Mas a palavra é como criança
Quer ser grande antes do tempo
Quer ser independente
- palavras dão um trabalhão
quando esperneiam cheias de vontades -
É feito filho que a gente cria
Sem saber pra quê
(antes, depois ou entre)
Palavra encanta a gente!
E dá a falsa esperança
Que através delas
A gente pode ser pra sempre.

Copyright © 2007 by Emanuel Galvão
All rights reserved.


Tel…

Discurso Pré-fabricado Para Uso dos Passivos (Paulo Miranda Barreto)

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Já não entro em briga de foice e martelo
em briga de galo , de cachorro-grande
de vermelho sangue e de verde-amarelo. . .
Prefiro deixar que meu furor se abrande

Dei de observar de longe o desmantelo
‘pacificamente’ . . . qual filho de Gandhi
qual João-sem-braço ou delicado dândi
(Politicamente correto . . . sem sê-lo)

Evito o confronto, o debate, o tumulto
me esquivo do bruto, do louco, do irado
do pobre e coitado, do abastado e culto
do justo, do injusto . . . e do desajustado

Eu, de indignado, destemido e astuto
passei a ser manso, zen e conformado. . .
Fui bravo soldado . . . mais que resoluto
Hoje, já não luto . . . Só espero sentado


que o absoluto mal seja extirpado. . .
e que o injustiçado receba o indulto.

Paulo Miranda Barreto - Este trabalho está licenciado
com uma Licença Creative Commons
- Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

Minha Rua Não Tem Palmeiras (Jarbas Siebiger)

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Minha rua é socialista. Quando chove, há barro para todos. Lá, a democracia é totalitária. Quiseram calçá-la, base de rateio. Uns poucos declinaram, continuou crua. Ideologicamente, prefiro. Seria brindar incapacidades.

Na minha rua, economia imita globalização e autossustentabilidade. Tem Paulinho, que apara mato, colore grade, maquia muro. Iara pergunta hora e cronometra salgado quente aos aniversários. Caia fundo de churrasqueira, Rogério improvisará lata. Puxadinho é com o Gérson: cerveja servida, barateia mão-de-obra, afina acabamento. Coelho limpa carburador, põe ponto ao motor. Depois, divide birita e costela. Compradas com os caraminguás do socorro. A mulher lava pra vizinha defronte. Sem pudor, nem preconceito. Necessidade. Nem a coleta do lixo é discriminada. Mesmo assim, garrafas vão separadas. Retornam com detergente. Feito por lá. Procedência se conhece, nota faltará. Política, a rua dispensa: Estado não cumpre, não interfira.

Rua minha é solidária. Kombi de Paulo faz am…

Para Liquidar Os Povos (Milan Kundera)

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Incêndio que destruiu o Museu Nacional
Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra história.

O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978.