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Mostrando postagens de Setembro, 2018

Com Licença Poética (Adélia Prado)

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Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Prado , Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 11.

"Você é Feminista!" (Ruth Manus)

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Semana passada fui dar aula sobre assédio sexual num curso de pós graduação em São Paulo. Cheguei na sala, composta predominantemente por advogados, e perguntei “Quem aqui se considera feminista?”. Silêncio. Uma moça levanta timidamente o braço. Dois ou três caras fazem comentários baixinho e riem.

Disse “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês”. Continuei.

“Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a IGUALDADE politica, social e econômica de ambos os sexos.

Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.”

Esperei um pouquinho e mudei a pergunta “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?”. Ninguém levantou a mão.

Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor: dize…

De Estimação (Emanuel Galvão)

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O livro vai a onde
traçam seu itinerário.
Preso em estantes,
Todavia, livro é libertário.
Livro é libertação!
A capa e a contracapa
Que segura o conteúdo
Não o faz para sempre,
Abre-se prontamente,
Com auxílio curioso das mãos.
Contudo,
Meu caro,
Leitor é bicho raro!
Quase em extinção.
Eu mesmo,
Cuido dos meus,
Ando feito Promēthéus:
Trago fogo, trago flores,
Reflexão, excitação, amores,
Vida, sonho, paixão.

Tudo para meus leitores.
São meus, e de estimação.
Junto a eles é meu lugar.
Amar tem seus sinônimos...
Um deles é cuidar.
Copyright © 2018 by Emanuel Galvão
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A formalística (Adélia Prado)

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O poeta cerebral
tomou café sem
açúcar
e foi pro gabinete
concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada
das palavras,
imagem que elegeu
porque ama a
dificuldade,
o efeito respeitoso
que produz
seu trato com o
dicionário.

Esta Gente (Sophia de Mello Breyner)

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Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

A Margem Esquerda do Rio (Emanuel Galvão)

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Em memória de Francisco Sales
Uma cidade edificada de história e conhecimento Alicerçada na pedra da Sabedoria Um monumento antigo e sempre novo Um ícone do povo Muito embora forjado na academia.

Quem viveu para preservar a memória Mesmo que da vida destituído Jamais será esquecido! Pois soube edificar em rocha Sua história, A do seu povo... Desse antigo casario A margem esquerda do rio.
Habita agora na Casa do Penedo Uma saudade... Cada papel amarelado Cada peça do acervo Na margem daquele lado Perde o Seio, o eixo o nervo...
Uma poeira, Uma digital, Um vento que entra de qualquer maneira E percorre todo erêncio - Ele aparente surdo à voz de todos - Fala agora seus silêncios.

19.09.2018

Copyright © 2018 by Emanuel Galvão
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Conheça mais de Francisco Alberto Sales e a Fundação Casa do Penedo

Francisco Alberto Sales, fundador da Casa do Penedo, faleceu aos 78 anos em Brasília — Foto: Roberto Miranda/Arquivo pessoal *19.11.1939 +18.09.2018




Seu Rei Mandou Dizer... (Emanuel Galvão)

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"...mas das palavras não sou eu que faço uso. São elas, as geniosas, as venais que se utilizam de mim e se divertem.."
Bruna Lombardi


Pensei certa vez:
Que ofício tem o poeta,
Senão brincar com as palavras?
Não percebia eu
Que elas - as palavras -
É que brincavam comigo.

Percebi isto quando,
Brincar não estava disposto
E as palavras brincavam de se esconder,
De escorregar, de pega-pega,
De pular carniça;
- cada brincadeira de mau gosto! -
De boca de forno,
Só pra me fazer ir e vir.
Atrás de letras, sílabas, pontos, vírgulas
Que seu rei mandou dizer...
E como não bastasse dizer!
Escrever, escrever, escrever...

Mas a palavra é como criança
Quer ser grande antes do tempo
Quer ser independente
- palavras dão um trabalhão
quando esperneiam cheias de vontades -
É feito filho que a gente cria
Sem saber pra quê
(antes, depois ou entre)
Palavra encanta a gente!
E dá a falsa esperança
Que através delas
A gente pode ser pra sempre.

Copyright © 2007 by Emanuel Galvão
All rights reserved.


Tel…

Discurso Pré-fabricado Para Uso dos Passivos (Paulo Miranda Barreto)

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Já não entro em briga de foice e martelo
em briga de galo , de cachorro-grande
de vermelho sangue e de verde-amarelo. . .
Prefiro deixar que meu furor se abrande

Dei de observar de longe o desmantelo
‘pacificamente’ . . . qual filho de Gandhi
qual João-sem-braço ou delicado dândi
(Politicamente correto . . . sem sê-lo)

Evito o confronto, o debate, o tumulto
me esquivo do bruto, do louco, do irado
do pobre e coitado, do abastado e culto
do justo, do injusto . . . e do desajustado

Eu, de indignado, destemido e astuto
passei a ser manso, zen e conformado. . .
Fui bravo soldado . . . mais que resoluto
Hoje, já não luto . . . Só espero sentado


que o absoluto mal seja extirpado. . .
e que o injustiçado receba o indulto.

Paulo Miranda Barreto - Este trabalho está licenciado
com uma Licença Creative Commons
- Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

Minha Rua Não Tem Palmeiras (Jarbas Siebiger)

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Minha rua é socialista. Quando chove, há barro para todos. Lá, a democracia é totalitária. Quiseram calçá-la, base de rateio. Uns poucos declinaram, continuou crua. Ideologicamente, prefiro. Seria brindar incapacidades.

Na minha rua, economia imita globalização e autossustentabilidade. Tem Paulinho, que apara mato, colore grade, maquia muro. Iara pergunta hora e cronometra salgado quente aos aniversários. Caia fundo de churrasqueira, Rogério improvisará lata. Puxadinho é com o Gérson: cerveja servida, barateia mão-de-obra, afina acabamento. Coelho limpa carburador, põe ponto ao motor. Depois, divide birita e costela. Compradas com os caraminguás do socorro. A mulher lava pra vizinha defronte. Sem pudor, nem preconceito. Necessidade. Nem a coleta do lixo é discriminada. Mesmo assim, garrafas vão separadas. Retornam com detergente. Feito por lá. Procedência se conhece, nota faltará. Política, a rua dispensa: Estado não cumpre, não interfira.

Rua minha é solidária. Kombi de Paulo faz am…

Para Liquidar Os Povos (Milan Kundera)

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Incêndio que destruiu o Museu Nacional
Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra história.

O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978.