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Mostrando postagens de Setembro, 2018

Timidez - Eu Que Não Sei Falar de Amor (Emanuel Galvão)

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  Meu corpo deseja teu calor Volúpia que me faz enlouquecer Com fúria e sem nenhum pudor E a certeza de não te esquecer Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você As flores exalam seu olor Antes que possam fenecer O sol fornece seu calor Antes da noite o esconder  Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Talvez haja um pouco de temor Mas preciso então esclarecer Revelar-me parece libertador Senão, sou capaz de padecer Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Das paixões sou colecionador Mas você me fez amolecer Com seu jeitinho encantador E beleza que não posso descrever Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Escrever é algo desafiador Mas que se pode aprender Amante não tem procurador Ninguém pode substabelecer Eu que não sei falar de amor Resolvi escrever para você Menina te falo com muito ardor Para você jamais me esquecer Ser poeta ou ser um trovador Nem se compara em te satisfazer Eu que não sei falar de amor Resolvi es

Com Licença Poética (Adélia Prado)

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Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos -- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Adélia Prado , Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 11.

"Você é Feminista!" (Ruth Manus)

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Semana passada fui dar aula sobre assédio sexual num curso de pós graduação em São Paulo. Cheguei na sala, composta predominantemente por advogados, e perguntei “Quem aqui se considera feminista?”. Silêncio. Uma moça levanta timidamente o braço. Dois ou três caras fazem comentários baixinho e riem. Disse “Ok. Vou fazer duas leituras rápidas para vocês”. Continuei. “Dicionário Houaiss da língua portuguesa: FEMINISMO: teoria que sustenta a IGUALDADE politica, social e econômica de ambos os sexos. Dicionário Jurídico da Professora Maria Helena Diniz: FEMINISMO: movimento que busca equiparar a mulher ao homem no que atina aos direitos, emancipando-a jurídica, econômica e sexualmente.” Esperei um pouquinho e mudei a pergunta “Quem aqui pode me dizer que NÃO se considera feminista?”. Ninguém levantou a mão. Pois é. Tenho a sensação de que 99% do mundo não entendeu até agora o que é feminismo. Porque se as pessoas entendessem, quase todo mundo teria orgulho de se dizer feminista. E o melhor

De Estimação (Emanuel Galvão)

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O livro vai a onde traçam seu itinerário. Preso em estantes, Todavia, livro é libertário. Livro é libertação! A capa e a contracapa Que segura o conteúdo Não o faz para sempre, Abre-se prontamente, Com auxílio curioso das mãos. Contudo, Meu caro, Leitor é bicho raro! Quase em extinção. Eu mesmo, Cuido dos meus, Ando feito Promēthéus: Trago fogo, trago flores, Reflexão, excitação, amores, Vida, sonho, paixão. Tudo para meus leitores. São meus, e de estimação. Junto a eles é meu lugar. Amar tem seus sinônimos... Um deles é cuidar. Copyright © 2018 by Emanuel Galvão All rights reserved.

A formalística (Adélia Prado)

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O poeta cerebral tomou café sem açúcar e foi pro gabinete concentrar-se. Seu lápis é um bisturi que ele afia na pedra, na pedra calcinada das palavras, imagem que elegeu porque ama a dificuldade, o efeito respeitoso que produz seu trato com o dicionário.

Esta Gente (Sophia de Mello Breyner)

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Esta gente cujo rosto Às vezes luminoso E outras vezes tosco Ora me lembra escravos Ora me lembra reis Faz renascer meu gosto De luta e de combate Contra o abutre e a cobra O porco e o milhafre Pois a gente que tem O rosto desenhado Por paciência e fome É a gente em quem Um país ocupado Escreve o seu nome E em frente desta gente Ignorada e pisada Como a pedra do chão E mais do que a pedra Humilhada e calcada Meu canto se renova E recomeço a busca De um país liberto De uma vida limpa E de um tempo justo

A Margem Esquerda do Rio (Emanuel Galvão)

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Em memória de Francisco Sales Uma cidade edificada de história e conhecimento Alicerçada na pedra da Sabedoria Um monumento antigo e sempre novo Um ícone do povo Muito embora forjado na academia. Quem viveu para preservar a memória Mesmo que da vida destituído Jamais será esquecido! Pois soube edificar em rocha Sua história, A do seu povo... Desse antigo casario A margem esquerda do rio. Habita agora na Casa do Penedo Uma saudade... Cada papel amarelado Cada peça do acervo Na margem daquele lado Perde o Seio, o eixo o nervo... Uma poeira, Uma digital, Um vento que entra de qualquer maneira E percorre todo erêncio - Ele aparente surdo à voz de todos - Fala agora seus silêncios. 19.09.2018 Copyright © 2018 by Emanuel Galvão All rights reserved. Conheça mais de Francisco Alberto Sales e a  Fundação Casa do Penedo Francisco Alberto Sales, fundador da Casa do Penedo, faleceu aos 78 anos em Brasília — Foto: Ro

Seu Rei Mandou Dizer... (Emanuel Galvão)

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"...mas das palavras não sou eu que faço uso. São elas, as geniosas, as venais que se utilizam de mim e se divertem.." Bruna Lombardi Pensei certa vez: Que ofício tem o poeta, Senão brincar com as palavras? Não percebia eu Que elas - as palavras - É que brincavam comigo. Percebi isto quando, Brincar não estava disposto E as palavras brincavam de se esconder, De escorregar, de pega-pega, De pular carniça; - cada brincadeira de mau gosto! - De boca de forno, Só pra me fazer ir e vir. Atrás de letras, sílabas, pontos, vírgulas Que seu rei mandou dizer... E como não bastasse dizer! Escrever, escrever, escrever... Mas a palavra é como criança Quer ser grande antes do tempo Quer ser independente - palavras dão um trabalhão quando esperneiam cheias de vontades - É feito filho que a gente cria Sem saber pra quê (antes, depois ou entre) Palavra encanta a gente! E dá a falsa esperança Que através delas A gente pode ser pra sempre. Copyrig

Discurso Pré-fabricado Para Uso dos Passivos (Paulo Miranda Barreto)

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Já não entro em briga de foice e martelo em briga de galo , de cachorro-grande de vermelho sangue e de verde-amarelo. . . Prefiro deixar que meu furor se abrande Dei de observar de longe o desmantelo ‘pacificamente’ . . . qual filho de Gandhi qual João-sem-braço ou delicado dândi (Politicamente correto . . . sem sê-lo) Evito o confronto, o debate, o tumulto me esquivo do bruto, do louco, do irado do pobre e coitado, do abastado e culto do justo, do injusto . . . e do desajustado Eu, de indignado, destemido e astuto passei a ser manso, zen e conformado. . . Fui bravo soldado . . . mais que resoluto Hoje, já não luto . . . Só espero sentado que o absoluto mal seja extirpado. . . e que o injustiçado receba o indulto. Paulo Miranda Barreto - Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição CompartilhaIgual 4.0 Internacional -.

Minha Rua Não Tem Palmeiras (Jarbas Siebiger)

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Minha rua é socialista. Quando chove, há barro para todos. Lá, a democracia é totalitária. Quiseram calçá-la, base de rateio. Uns poucos declinaram, continuou crua. Ideologicamente, prefiro. Seria brindar incapacidades. Na minha rua, economia imita globalização e autossustentabilidade. Tem Paulinho, que apara mato, colore grade, maquia muro. Iara pergunta hora e cronometra salgado quente aos aniversários. Caia fundo de churrasqueira, Rogério improvisará lata. Puxadinho é com o Gérson: cerveja servida, barateia mão-de-obra, afina acabamento. Coelho limpa carburador, põe ponto ao motor. Depois, divide birita e costela. Compradas com os caraminguás do socorro. A mulher lava pra vizinha defronte. Sem pudor, nem preconceito. Necessidade. Nem a coleta do lixo é discriminada. Mesmo assim, garrafas vão separadas. Retornam com detergente. Feito por lá. Procedência se conhece, nota faltará. Política, a rua dispensa: Estado não cumpre, não interfira. Rua minha é solidária. Kombi de Paul

Para Liquidar Os Povos (Milan Kundera)

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Incêndio que destruiu o Museu Nacional Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra história. O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978.