A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

Soraia Sereia (Paulo Miranda Barreto)



‘’a vida é tão curta quanto a tua saia’’
mas inda te enfurnas no quarto dos fundos
e segredas versos à uma samambaia
alheia a beleza de bilhões de mundos

que pairam no espaço infinito, Soraia
enquanto teu corpo perfeito definha
enquanto teu corpo moreno desmaia
de tédio na cama em que dormes sozinha. . .

à espera da morte, vives de tocaia
não sabes o nome da tua vizinha
se a lua está cheia, se o sol inda raia
ou se a humanidade rasteja ou caminha

e o que só deus sabe e ninguém adivinha
é o quanto te amo . . . te amo Soraia!
e tudo eu faria pra que fosses minha
moveria os montes de todo o Himalaia

mas, tu sequer lembras da força que tinhas
dos velhos amigos, da casa na praia
de nós vendo estrelas, catando conchinhas
sentados na areia e ouvindo Tim Maia. . .

lembro-me de tudo, de cada coisinha
das tuas blusinhas tomara que caia. . .
dos teus lindos brincos de água-marinha
de todas as flores que te dei, Soraia

mas, agora o medo dentro em ti se apinha
te rói ,te espezinha, te prende à uma teia
e tu já não ousas . . . não cruzas a linha
tu és prisioneira . . . e a própria cadeia

e a minha esperança morre . . . pobrezinha
poema de amor que não tem quem o leia. . .
peixe fora d’água . . . sol que se esfarinha
e morre a esperar-te, Soraia . . . sereia. 




IMAGEM: ‘’Lú Galvão"
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