Mulher Sem Limites (Romance de Flor) (Emanuel Galvão)

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Você já figura no meu coraçãoDescalça e sem roupa como num salãoTão bela e tão doce, mulher sem limitesQuem dera que fosse... E assim exististesDançando ao ritmo de minha pulsação.Não cabes em rótulos, por que caberias?Palavras ou versos, talvez te seduza...Então, só então, tu abras tua blusaE ardente, insana, tu permitiriasVolúpias intensas de terna paixão.Porque minha pele não te resistiriaEs bela não nego, sou tão negligenteForas apenas bela, mas és inteligenteNão encontro virtude que assim a alcanceMelhor te amar, assim de relanceSem ilusões, sem juras de amorRomance de flor, sem dor sem espinhoCaindo as pétalas, restará: odor e carinhoAssim em meu sonho, te possuo inteiraTe amando pleno, não de qualquer maneira.
Copyright © 2020 by Emanuel Galvão
All rights reserved.

*Foto by: Ana Cruz

Problema de Casal (Fernando Tenório)





Estava de plantão num hospital psiquiátrico. A noite navegava entre um atendimento e outro, permitindo cochilos nos intervalos entre as consultas. Três e meia da manhã, e ouvi um companheiro de trabalho avisar:
- Chegaram dois pacientes.
- De ambulância?
- Nada. Vieram juntos.

A cena era inusitada. O homem com uma gravata, camisa mal passada, calça de linho. A mulher com um vestido de festa cheio de brilho e sandália alta. Ambos claramente alcoolizados. Chamei o camarada, mas a moça logo pediu uma "consulta conjunta" e também entrou na sala. Perguntei-lhes:
- O que trouxe vocês aqui?
Eles se entreolharam, e a mulher resolveu tomar partido:
- Resolvemos vir aqui saber quem é o mais doido da relação.
- Isso! Estávamos voltando de um baile de formatura e ela teimou que sou estranho, mas na verdade a maluca é ela. Então, resolvemos passar aqui para ouvir a opinião de quem entende - disse o marido.

Eu já estava acordado, mas nem tanto. Ainda assim, deixei a curiosidade conduzir a entrevista. Meu silêncio serviu para dar linha na pipa do casal. A mulher falou:
- Doutor, ele é contraditório. Pediu a vida toda outra na nossa cama para fazer sexo a três, e hoje eu lavei a cara com vodca para topar. Arrumei uma amiga e fomos para uma festa, passamos a noite juntos, mas na hora H, esse traste disse que estava cansado e levou a Jabilene para casa.
- Tem meu lado também. A amiga dela tinha mau hálito. Eu vou realizar meu sonho com uma mulher com a boca de fossa? Ela só topou a ideia de sexo a três, pois descobri uma traição com um executivo do meu trabalho.
- Não foi traição. Foi um momento delicado. Um momento de fraqueza!
- Não sabia que peru de outro macho fosse polivitamínico.

Um silêncio denso inundou a sala.
- Fala algo, doutor- bradou a dama. - Diz logo quem tem razão - retrucou o homem.
O rapaz logo partiu para o ataque:
- Ela tem o hábito de roer as unhas dos pés, acorda ouvindo samba-enredo, dança nua na janela para atiçar a pivetada dos prédios vizinhos... Só coisa de doida!
- E você? Você fuma maconha todo dia, já comeu a minha tia-avó de 70 anos. Pensa que esqueci?
- Ué, ela me pagou mil reais e paguei nosso aluguel. Foi você quem agenciou a operação. Fiz por amor e dívidas!
- E eu dei para seu chefe para você não perder o emprego. Não queria te ver deprimido.
- Eu não quis sua amiga hoje para mostrar que eu te amo, sua porra doida!
- E eu queria incluir ela nos paranauês para provar que por você eu sou capaz de tudo.
Eles novamente se olharam. Sorriram. A moça encostou a cabeça no ombro do homem e esse beijou longamente a testa dela. Indaguei:
- Resolvidos?
- Sim - respondeu a esposa.
- Então podem ir embora.

Como canta meu amigo Wado: " Se é tudo por um triz/ você prefere ter razão/ ou ser feliz?". Pensei nisso quando vi os dois saindo de mãos dadas, como se meu silêncio tivesse sido mediador e combustível para relação. Ouvi o marido segredar:
- Doido mesmo é esse médico. Viu o cabelo dele? Todo despenteado. A gente falando um monte de maluquice e ele parecia que estava ouvindo o hino da França.

A moça ratificou:
- Ele até bocejou.


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