Problema de Casal (Fernando Tenório)





Estava de plantão num hospital psiquiátrico. A noite navegava entre um atendimento e outro, permitindo cochilos nos intervalos entre as consultas. Três e meia da manhã, e ouvi um companheiro de trabalho avisar:
- Chegaram dois pacientes.
- De ambulância?
- Nada. Vieram juntos.

A cena era inusitada. O homem com uma gravata, camisa mal passada, calça de linho. A mulher com um vestido de festa cheio de brilho e sandália alta. Ambos claramente alcoolizados. Chamei o camarada, mas a moça logo pediu uma "consulta conjunta" e também entrou na sala. Perguntei-lhes:
- O que trouxe vocês aqui?
Eles se entreolharam, e a mulher resolveu tomar partido:
- Resolvemos vir aqui saber quem é o mais doido da relação.
- Isso! Estávamos voltando de um baile de formatura e ela teimou que sou estranho, mas na verdade a maluca é ela. Então, resolvemos passar aqui para ouvir a opinião de quem entende - disse o marido.

Eu já estava acordado, mas nem tanto. Ainda assim, deixei a curiosidade conduzir a entrevista. Meu silêncio serviu para dar linha na pipa do casal. A mulher falou:
- Doutor, ele é contraditório. Pediu a vida toda outra na nossa cama para fazer sexo a três, e hoje eu lavei a cara com vodca para topar. Arrumei uma amiga e fomos para uma festa, passamos a noite juntos, mas na hora H, esse traste disse que estava cansado e levou a Jabilene para casa.
- Tem meu lado também. A amiga dela tinha mau hálito. Eu vou realizar meu sonho com uma mulher com a boca de fossa? Ela só topou a ideia de sexo a três, pois descobri uma traição com um executivo do meu trabalho.
- Não foi traição. Foi um momento delicado. Um momento de fraqueza!
- Não sabia que peru de outro macho fosse polivitamínico.

Um silêncio denso inundou a sala.
- Fala algo, doutor- bradou a dama. - Diz logo quem tem razão - retrucou o homem.
O rapaz logo partiu para o ataque:
- Ela tem o hábito de roer as unhas dos pés, acorda ouvindo samba-enredo, dança nua na janela para atiçar a pivetada dos prédios vizinhos... Só coisa de doida!
- E você? Você fuma maconha todo dia, já comeu a minha tia-avó de 70 anos. Pensa que esqueci?
- Ué, ela me pagou mil reais e paguei nosso aluguel. Foi você quem agenciou a operação. Fiz por amor e dívidas!
- E eu dei para seu chefe para você não perder o emprego. Não queria te ver deprimido.
- Eu não quis sua amiga hoje para mostrar que eu te amo, sua porra doida!
- E eu queria incluir ela nos paranauês para provar que por você eu sou capaz de tudo.
Eles novamente se olharam. Sorriram. A moça encostou a cabeça no ombro do homem e esse beijou longamente a testa dela. Indaguei:
- Resolvidos?
- Sim - respondeu a esposa.
- Então podem ir embora.

Como canta meu amigo Wado: " Se é tudo por um triz/ você prefere ter razão/ ou ser feliz?". Pensei nisso quando vi os dois saindo de mãos dadas, como se meu silêncio tivesse sido mediador e combustível para relação. Ouvi o marido segredar:
- Doido mesmo é esse médico. Viu o cabelo dele? Todo despenteado. A gente falando um monte de maluquice e ele parecia que estava ouvindo o hino da França.

A moça ratificou:
- Ele até bocejou.


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