A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

Meu Canto (Emanuel Galvão)




Não lembro de ter me colocado
Nesse mundo tão belo, a passeio.
Não vejo essa vida, qual recreio,
Pra viver minha vida recalcado.
Eu prefiro partir mais que depressa
Vida assim, inútil, não interessa,
Pra não dizer, melhor ficar calado,
Que poeta sem voz e segregado,
Esta vida não vive, atravessa.

Da viola só tenho as dez cordas
E das horas do dia vinte e quatro.
Das esquinas e das praças meu teatro,
Sem luz, sem plateia e sem hordas.
Solto apenas meu canto de protesto,
Pois na vida o que eu mais detesto,
É aquele que apenas só concorda,
O avesso do pano de quem borda,
É meu canto irritante e manifesto.

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