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Mostrando postagens de Novembro, 2017

Meu Canto (Emanuel Galvão)

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Não lembro de ter me colocado Nesse mundo tão belo, a passeio. Não vejo essa vida, qual recreio, Pra viver minha vida recalcado. Eu prefiro partir mais que depressa Vida assim, inútil, não interessa, Pra não dizer, melhor ficar calado, Que poeta sem voz e segregado, Esta vida não vive, atravessa.
Da viola só tenho as dez cordas E das horas do dia vinte e quatro. Das esquinas e das praças meu teatro, Sem luz, sem plateia e sem hordas. Solto apenas meu canto de protesto, Pois na vida o que eu mais detesto, É aquele que apenas só concorda, O avesso do pano de quem borda, É meu canto irritante e manifesto.

A Lua Foi ao Cinema (Paulo Leminski)

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A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!

Antepasto (Antônio Miranda)

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Tudo o que o Poeta escreve está resumido numa única palavra: Solidão.
Escrever é distanciar-se do mundo para poder entendê-lo é uma forma de morrer.
Viver é outra coisa ainda que alienada.
Eu trocaria mil rimas por uma noite de amor.
E trocaria um belo poema sobre a fome por um singelo prato de comida.

*veja mais do autor aqui:

Me Afirmo em Negativas (Mauro Gouvêa)

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Não sou muro nem parede
Sou fino fio, tênue rede
que não ampara a alma equilibrista
nem segura a letra que se arrisca.

não sou arrimo nem aprumo
sou escassa sombra, volátil fumo
que escora o verso que escorrega
e não sustenta a rima cega.

Não sou bússola ou sextante
farol acesso ou mirante
que alivia o navegar de Homero.

Não sou o que querem, sou o que quero.


Para Sua Consciência Humana (Adrina Moraes)

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Textão pra sua consciência humana!
Todas as vezes que chega o dia de um marco de luta das minorias, aparece um opressor ou mesmo um oprimido vomitando ideias genéricas.
Mais uma vez venho combater essa campanha de consciência humana, que só ganha força no  DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.
Que consciência humana você demonstrou nos 364 dias em que a população negra sofre perseguição da polícia? Dos seguranças de shoppings e supermercados?  Quando  a menina de cabelo crespo sofreu bullying? Quando os meninos pretos foram chamados de macaco? Quando estudantes brancos e seus pais gritaram "sua mãe  faz a minha faxina"? Quando rolou a  festa "e se nada der certo"?. Onde estava sua consciência  humana quando me  disseram que me comprariam  caso  a escravatura  ainda existisse? (Ela ainda existe). Ou quando me confundem com babá ou mãe de Santo caso eu vista branco? Sua consciência humana quer me calar usando a prerrogativa de que não sou negra posto que meu cabelo é bom (mesmo…

Problema de Casal (Fernando Tenório)

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Estava de plantão num hospital psiquiátrico. A noite navegava entre um atendimento e outro, permitindo cochilos nos intervalos entre as consultas. Três e meia da manhã, e ouvi um companheiro de trabalho avisar:
- Chegaram dois pacientes.
- De ambulância?
- Nada. Vieram juntos.

A cena era inusitada. O homem com uma gravata, camisa mal passada, calça de linho. A mulher com um vestido de festa cheio de brilho e sandália alta. Ambos claramente alcoolizados. Chamei o camarada, mas a moça logo pediu uma "consulta conjunta" e também entrou na sala. Perguntei-lhes:
- O que trouxe vocês aqui?
Eles se entreolharam, e a mulher resolveu tomar partido:
- Resolvemos vir aqui saber quem é o mais doido da relação.
- Isso! Estávamos voltando de um baile de formatura e ela teimou que sou estranho, mas na verdade a maluca é ela. Então, resolvemos passar aqui para ouvir a opinião de quem entende - disse o marido.

Eu já estava acordado, mas nem tanto. Ainda assim, deixei a curiosidade conduzir a entrevis…

Podres Poderes (Caetano Emanuel Viana Teles Veloso)

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Enquanto os homens exercem Seus podres poderes Motos e fuscas avançam Os sinais vermelhos E perdem os verdes Somos uns boçais
Queria querer gritar Setecentas mil vezes Como são lindos Como são lindos os burgueses E os japoneses Mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos senão confirmar A incompetência da América católica Que sempre precisará de ridículos tiranos Será, será, que será? Que será, que será? Será que esta minha estúpida retórica Terá que soar, terá que se ouvir Por mais zil anos
Enquanto os homens exercem Seus podres poderes Índios e padres e bichas Negros e mulheres E adolescentes Fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com eles Silenciar em respeito ao seu transe num êxtase Ser indecente Mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz Com sua burrice fará jorrar sangue demais Nos pantanais, nas cidades Caatingas e nos gerais
Será que apenas os hermetismos pascoais E os tons, os mil tons Seus sons e seus dons geniais Nos salvam, nos salvarão Dessas trevas e nada mais
Enquanto os homens exerce…

Ele Não Tava Nem Aí (Ronaldo Pereira de Lima)

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Para Alane, o smartphone do marido era um atrevido que se meteu em suas vidas. Se tivesse sexo, não gênero, diria que eles mantinham uma relação homoafetiva. Que toda aquela atenção dedicada para ele se voltasse para ela. Largada no sofá, já não aguentava aquela situação. Precisava dar um jeito nisso. Foi aonde ele estava, disse-lhe algo e ele nem prestou atenção. Queria mais era se divertir, caçar Pokémon. Sentindo-se rejeitada, foi para o banheiro e chorou amargamente. Em seguida, lavou o rosto, banhou-se. Telefonou para a prima e pediu que a pegasse em casa. O que mais queria naqueles instantes de amargura era sumir de casa. No bar, lamurienta, pediu uma dose de uísque, mais outra e outra. Eufórica, avistou um belo rapaz que sorriu para ela. A prima não a empurrou para ele, mas pediu que tivesse cuidado. Os apelos foram inúteis. E no banheiro do bar, deram uma rapidinha. Passada aquela noite da primeira traição, Alane se sentia mal e sequer olhava para o marido. Olhar em seus olhos, n…