O Beijo (Elsa Moreno)

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O Beijo de Gustav Klint (fragmento) Eu acho que os beijos são dados na boca porque é onde brotam as palavras. Se eu te beijasses a ponta dos dedos, estaria buscando uma carícia; se te beijasse a sola do sapato, estaria buscando um caminho. Se te beijasse as pálpebras enquanto dormes, estaria pedindo permissão para entrar nos teus sonhos, mas estou te beijando os lábios, porque quero ouvir minhas palavras saírem de ti, outra vez. Se te beijasse a planta dos pés, buscaria um passo em falso. Se te beijasse a parte interna do cotovelo, buscaria teus esconderijos. Se te beijasse a sombra, não saberia o que busco, mas estaria tão perto. Se te buscasse essa noite, beijaria cada estranho até te encontrar. Outra vez. Se eu te beijasse, seria como algo escorregadio sobre uma tela de carne que transborda e se espalha pelas vigas da minha casa. Subiria escorregadia por um muro, separando a pele da carne que se injeta em uma estrutura impessoal chamada nome. Estaria consumida antes mesmo de abrir ...

MAR SEM FIM (Emanuel Galvão)


                                                                         
Foz do rio São Francisco
*para Ana & Alex

                      "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. 
                 Mas ninguém chama violentas às margens
                         que o comprimem."
                                                        Bertolt Brecht.

Da nascente do colo meu
Escorreu pequenininho
Quando vi ele cresceu
E seguiu o seu caminho.

Riacho levado ele era
Arteiro e cristalino
Pureza, inquieta quimera
Era assim o meu menino

Mas foi se tornando rio
Foi ficando corpulento
E foi nesse desvario
Que começou o tormento

Mãe não entende de filho
Mãe entende de amar
Como por um rio no trilho
Se seu destino é o mar

“E do rio que tudo arrasta
Se diz que é violento...”
E a margem que lhe diz basta
De todos tem consentimento

Da nascente do meu colo
Vi meu rio se afastar
Em seu sonho sem dolo
Queria apenas ser mar

E o mar que banha meu rosto
Quando vem me visitar
Saudade que tem um gosto
Eterno de um bem, de amar.

Não é para consolar
Falo porque acredito
O que aqui chamo mar
Deus chama de infinito.

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