A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

Imagem
  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

Intertexto (Bertolt Brecht)



Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Tempo (Roberto Pompeu de Toledo)

"O Que A Memória Ama Fica Eterno" (Fabíola Simões)

Os Votos (Sérgio Jockymann)

Da Calma e do Silêncio (Conceição Evaristo)

A FLOR E A FONTE (Vicente de Carvalho)

'UMA OSTRA QUE NÃO FOI FERIDA NÃO PRODUZ PÉROLAS' (Rubem Alves)

A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)