A Verdadeira Cura (Fernando Tenório)



Sábado de plantão. Depois de alguns atendimentos domiciliares, a ambulância ruma pela cidade. Os contrastes do Rio de Janeiro sendo vistos pela janela. Tentava absorver a cidade com os olhos, vendo meninos jogando futebol, mulheres conversando fortuitamente nas cadeiras da calçada e pude ver no Irajá uma pichação da cigana Oleska: “Trago o amor em 7 dias. Se não trouxer não era amor”. De alguma maneira, aquele recado escrito no muro enegrecido mexeu com todos ali. Luiz, o motorista, sorriu. André, o enfermeiro, cuidou em tirar foto para mandar à namorada. Eu fiquei pensando na verdade da sentença.

Chegamos a Madureira, destino do atendimento domiciliar. Terra do samba, das mulatas que requebram até de manhã, da Portela e Império Serrano. Isso pouco importava. O rádio já havia confirmado que um senhor 88 anos estava em franca dispneia. Entramos numa vila de casas pequeninas e na residência de cor amarela avançamos. O sofá era o abrigo para o senhor. Ele estava sentado, com a respiração aparentemente normal. Os olhos perdidos, a boca desviada e a interação quase inexistente davam indícios que logo a filha confirmou: “Ele teve um derrame e ficou assim”.

A esposa chorou. Contou do drama que vivia há 13 anos. Relatou a dificuldade de conviver com o corpo do homem que amou, pois a alma dele foi embora depois do acidente vascular cerebral. “Ele não é mais o mesmo. Nem olha para mim”. Depois de um tempo, perguntei o motivo do pedido de avaliação emergencial e a esposa, uma senhora bem apessoada na casa dos 60 anos, respondeu:
- Ele anda tossindo demais.

Depois de contar suas agruras, a esposa pediu para sair do lugar, pois não estava bem. Rumou para o lado externo da casa, mais precisamente para área comum da vila.

Examinei o doente e nada encontrei. André viu os sinais vitais e nada estava alterado. Explicamos para filha que não existiam motivos para maiores preocupações. Ela respirou aliviada e ofereceu uma goiabada com queijo. Luiz, o motorista, que sempre fica ao nosso lado, pensando em algum doce ou refrigerante ofertado pelos donos da casa, incrivelmente não estava lá. O motorista tinha localização incerta. André o procurou, mas deve ter pensado o mesmo que eu, que nosso companheiro saiu para fumar. Aceitamos a oferta gastronômica e nos deliciamos.

Saímos satisfeitos da casa amarela. Primeiramente, pelo paciente que fora apontado como dispneico e que estava bem. E também, por comer um quitute muito bom. Ficamos ao lado ambulância e nada do Luiz. André pensou em ligar para localizá-lo, e eu decidi tentar abrir a porta do veículo, que já estava aberta. Ouvi um bulício na parte traseira e fui verificar. Olhei pela janelinha consegui ver um casal se desvencilhando de um beijo.

Ao entrar no veículo, atrapalhamos o clima de romance. A mulher quis correr, mas Luiz segurou sua mão. Só soltou depois de alguns sussurros e de um telefone anotado. A mulher era a esposa do paciente atendido há pouco, aquela que reclamara da solidão compartilhada com o homem que já amou. Desceu ajeitando-se da ambulância e olhou novamente para Luiz antes de caminhar em direção à casa.

Luiz saiu da parte traseira da ambulância e entrou na boleia logo em seguida. Fitou-nos com os olhos e disse:
- O que foi? Nunca viram uma pessoa consolando outra? Eu não sou cruel.

Pensando bem, não havia local mais adequado para aquele flerte. A parte traseira da ambulância, local destino ao cuidado dos pacientes, foi escolhida. Quem disse que a falta de amor não faz adoecer? Talvez, naquele atendimento, Luiz tenha sido mais terapêutico que eu. Tenha resolvido mais questões de saúde até.

Depois, Luiz disse: “ninguém viu nada demais”. Ficamos em silêncio e o assunto nunca mais foi retomado, parecendo ter sido abafado pelo barulho da sirene.




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