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Mostrando postagens de Abril, 2015

A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência (Cecília Meireles)

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Através de grossas portas, sentem-se luzes acesas, — e há indagações minuciosas dentro das casas fronteiras: olhos colados aos vidros, mulheres e homens à espreita, caras disformes de insônia, vigiando as ações alheias. Pelas gretas das janelas, pelas frestas das esteiras, agudas setas atiram a inveja e a maledicência. Palavras conjeturadas oscilam no ar de surpresas, como peludas aranhas na gosma das teias densas, rápidas e envenenadas, engenhosas, sorrateiras. Atrás de portas fechadas, à luz de velas acesas, brilham fardas e casacas, junto com batinas pretas. E há finas mãos pensativas, entre galões, sedas, rendas, e há grossas mãos vigorosas, de unhas fortes, duras veias, e há mãos de púlpito e altares, de Evangelhos, cruzes, bênçãos. Uns são reinóis, uns, mazombos; e pensam de mil maneiras; mas citam Vergílio e Horácio, e refletem, e argumentam,

A Verdadeira Cura (Fernando Tenório)

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Sábado de plantão. Depois de alguns atendimentos domiciliares, a ambulância ruma pela cidade. Os contrastes do Rio de Janeiro sendo vistos pela janela. Tentava absorver a cidade com os olhos, vendo meninos jogando futebol, mulheres conversando fortuitamente nas cadeiras da calçada e pude ver no Irajá uma pichação da cigana Oleska: “Trago o amor em 7 dias. Se não trouxer não era amor”. De alguma maneira, aquele recado escrito no muro enegrecido mexeu com todos ali. Luiz, o motorista, sorriu. André, o enfermeiro, cuidou em tirar foto para mandar à namorada. Eu fiquei pensando na verdade da sentença. Chegamos a Madureira, destino do atendimento domiciliar. Terra do samba, das mulatas que requebram até de manhã, da Portela e Império Serrano. Isso pouco importava. O rádio já havia confirmado que um senhor 88 anos estava em franca dispneia. Entramos numa vila de casas pequeninas e na residência de cor amarela avançamos. O sofá era o abrigo para o senhor. Ele estava sentado, com a

Amor de Índio (Beto Guedes / Ronaldo Bastos)

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Tudo que move é sagrado E remove as montanhas Com todo o cuidado Meu amor Enquanto a chama arder Todo dia te ver passar Tudo viver a teu lado Com o arco da promessa Do azul pintado Pra durar Abelha fazendo o mel Vale o tempo que não voou A estrela caiu do céu O pedido que se pensou O destino que se cumpriu De sentir seu calor E ser todo Todo dia é de viver Para ser o que for E ser tudo Sim, todo amor é sagrado E o fruto do trabalho É mais que sagrado Meu amor A massa que faz o pão Vale a luz do seu suor Lembra que o sono é sagrado E alimenta de horizontes O tempo acordado de viver No inverno te proteger No verão sair pra pescar No outono te conhecer Primavera poder gostar No estio me derreter Pra na chuva dançar e andar junto O destino que se cumpriu De sentir seu calor e ser todo *   CLICK E OUÇA  a música com Djavan e Beto Guedes! * CLICK E OUÇA  Soul de Brasileiro interpretar Amor de Índio * CLICK E OUÇA  Central Ac

Ela é Só Uma Menina (Cicero Manoel de Lima Alves)

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Ela tem um cheirinho sensual, É a flor que ainda não foi tocada, Ela faz meu coração ficar mal Quando diz: vou ser sua namorada! Tudo nela, é pureza e virgindade, Tenho medo de olhar em seu olhar; Deus, eu tenho o dobro de sua idade, Fujo dela para não me apaixonar. Quando olho, seu olhar, sua boquinha... Quando ela encosta sua mão na minha, No caminho eu me perco na neblina. Toda vez que eu me encontro com ela, Não consigo mais sair de perto dela, Mas pra mim, ela é só uma menina. Santana do Mundaú – AL / 12 de dezembro de 2014   Copyright © 2014 by Cicero Manoel de Lima Alves All rights reserved.

Os Ninguéns (Eduardo Galeano)

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As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura. Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada. Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos: Que não são embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não tem cultura, têm folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm número. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

'Capitalismo' (Günter Grass)

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"Desde o colapso do socialismo, o capitalismo ficou sem rival. Esta situação anormal desencadeou o seu ganancioso e - acima de tudo - o seu poder suicida. Agora a crença é que tudo - e todos - estão num jogo justo."

Carta Aos Mortos (Affonso Romano de Sant'Anna)

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                 Amigos, nada mudou          em essência.          Os salários mal dão para os gastos,          as guerras não terminaram          e há vírus novos e terríveis,         embora o avanço da medicina.         Volta e meia um vizinho         tomba morto por questão de amor.         Há filmes interessantes, é verdade,         e como sempre, mulheres portentosas         nos seduzem com suas bocas e pernas,         mas em matéria de amor         não inventamos nenhuma posição nova.         Alguns cosmonautas ficam no espaço         seis meses ou mais, testando a engrenagem         e a solidão.         Em cada olimpíada há récordes previstos         e nos países, avanços e recuos sociais.         Mas nenhum pássaro mudou seu canto         com a modernidade.         Reencenamos as mesmas tragédias gregas,         relemos o Quixote, e a primavera         chega pontualmente cada ano.         Alguns hábitos, rios e florestas         se perder

A Casa é Sua (Arnaldo Antunes / Wharton Gonçalves Filho 'Ortinho')

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Não me falta cadeira Não me falta sofá Só falta você sentada na sala Só falta você estar Não me falta parede E nela uma porta pra você entrar Não me falta tapete Só falta o seu pé descalço pra pisar Não me falta cama Só falta você deitar Não me falta o sol da manhã Só falta você acordar Pras janelas se abrirem pra mim E o vento brincar no quintal Embalando as flores do jardim Balançando as cores no varal A casa é sua Por que não chega agora? Até o teto tá de ponta-cabeça Porque você demora A casa é sua Por que não chega logo? Nem o prego aguenta mais O peso desse relógio Não me falta banheiro, quarto Abajur, sala de jantar Não me falta cozinha Só falta a campainha tocar Não me falta cachorro Uivando só porque você não está Parece até que está pedindo socorro Como tudo aqui nesse lugar Não me falta casa Só falta ela ser um lar Não me falta o tempo que passa Só não dá mais para tanto esperar Para os pássaros voltarem a c

Um Certo Galileu (José Fernandes de Oliveira, SCJ)

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Um certo dia, a beira mar Apareceu um jovem Galileu Ninguém podia imaginar Que alguém pudesse amar do jeito que ele amava Seu jeito simples de conversar Tocava o coração de quem o escutava E seu nome era Jesus de Nazaré Sua fama se espalhou e todos vinham ver O fenômeno do jovem pregador Que tinha tanto amor Naquelas praias, naquele mar Naquele rio, em casa de Zaqueu Naquela estrada, naquele sol E o povo a escutar histórias tão bonitas Seu jeito amigo de se expressar Enchia o coração de paz tão infinita E seu nome era Jesus de Nazaré Sua fama se espalhou e todos vinham ver O fenômeno do jovem pregador Que tinha tanto amor Em plena rua, naquele chão Naquele poço e em casa de Simão Naquela relva, no entardecer O mundo viu nascer a paz de uma esperança Seu jeito puro de perdoar Fazia o coração voltar a ser criança E seu nome era Jesus de Nazaré Sua fama se espalhou e todos vinham ver O fenômeno do jovem pregador Que tinha tanto amor Um certo dia,

Lugar de Criança é Presa na Escola (Sérgio Vaz)

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Sou a favor do aumento da maioridade escolar. Isso mesmo, lugar de criança é presa na Escola (das 8h às 17h) e sendo torturada por aulas de Matemática, Português, Ciência, Música, Teatro, Geografia, Química, Física... ou tomando banho de sol enquanto fazem Educação Física. Quando elas começarem a criar asas, tranca-las na biblioteca para aprenderem a lapidar sonhos. Nessa cadeia os professores com super salários, super treinamento, super motivados não deixaram nada, nem ninguém escapar da castigo da sabedoria. Serão tempos difíceis para a ignorância. Depois de cumprirem pena e se tornarem cidadãos terão liberdade assistida... Pelos pais orgulhosos. *veja mais do autor em sua  FANPAGE