A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

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  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

A mulher da luz (Mírian Monte)


Para você eu corro,
Quando necessito de socorro,
Quando o mundo cai sobre meus ombros
E quando fico sob os escombros
Da tristeza e da desilusão.
São os seus olhos por que procuro,
Quando me perco no escuro,
Quando entro em apuro,
E quando busco o perdão.
É seu abraço que me acolhe
Se o que se planta não se colhe
Se a sorte se encolhe
E se o sonho sonhado só,
Simplesmente vira pó.
São suas mãos que me ajudam
A levantar na segunda-feira,
A juntar essa poeira
Decidindo recomeçar
E a fazer, do pó, sementes
Com urgência de estrela cadente,
Para outras quimeras semear. 
É sua alma, cheirando a alfazema,
Que me inspira esse poema
E que me faz querer dizer:
Mãe, meu amor primeiro,
Gratidão por todo o zelo
E por me compreender.
Minha fada,
Minha musa,
Minha rainha
É você, mãezinha,
A mulher da luz
E de cada amanhecer.
De todos os medos que carrego
O maior de todos, eu não nego,
É o de ver, minha mãe,
O seu sorriso fenecer.


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