Postagens

Mostrando postagens de Maio, 2019

A Caixa de Brinquedos (Rubem Alves)

Imagem
  A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "

A Palavra (Pedro Costa Pereira - Pedro poeta)

Imagem
A PALAVRA Alavanca e derruba Anula e constrói Poli e corrói Veste e desnuda. A PALAVRA Afaga e maltrata Alegra e esmaece Apaga e resplandece Adianta e retarda. A PALAVRA É o cheiro da flor É o estouro da bomba a palavra é quem comanda se declaras a guerra ou proferes o amor. Copyright © 2019 by Pedro Costa Pereira All rights reserved.

A mulher da luz (Mírian Monte)

Imagem
Para você eu corro, Quando necessito de socorro, Quando o mundo cai sobre meus ombros E quando fico sob os escombros Da tristeza e da desilusão. São os seus olhos por que procuro, Quando me perco no escuro, Quando entro em apuro, E quando busco o perdão. É seu abraço que me acolhe Se o que se planta não se colhe Se a sorte se encolhe E se o sonho sonhado só, Simplesmente vira pó. São suas mãos que me ajudam A levantar na segunda-feira, A juntar essa poeira Decidindo recomeçar E a fazer, do pó, sementes Com urgência de estrela cadente, Para outras quimeras semear.  É sua alma, cheirando a alfazema, Que me inspira esse poema E que me faz querer dizer: Mãe, meu amor primeiro, Gratidão por todo o zelo E por me compreender. Minha fada, Minha musa, Minha rainha É você, mãezinha, A mulher da luz E de cada amanhecer. De todos os medos que carrego O maior de todos, eu não nego, É o de ver, minha mãe, O seu sorriso fenecer. Copyright © 2019 by Mírian Mon

Felicidade (Vicente de Carvalho)

Imagem
Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a pena de viver, mais nada: Nem é mais a existência, resumida, Que uma grande esperança malograda. O eterno sonho da alma desterrada, Sonho que a traz ansiosa e embevecida, É uma hora feliz, sempre adiada E que não chega nunca em toda a vida. Essa felicidade que supomos, Árvore milagrosa, que sonhamos Toda arreada de dourados pomos, Existe, sim : mas nós não a alcançamos Porque está sempre apenas onde a pomos E nunca a pomos onde nós estamos.